Antes de fazer este texto, fiz o
seguinte exercício: fui ao Google, pus a frase “80 anos de João do Vale” e vi o
que aparecia. A princípio, o site não completou a frase, como faz usualmente. A
frase teve que ser completada por mim, para só então aparecerem uns dez
registros referentes ao tema. Todos maranhenses, a imensa maioria sobre o mesmo
assunto: o show que o projeto BR 135, do Alê Muniz e da Luciana Simões, fez
para homenagear “O poeta do povo”. A outra menção era da Wikipedia.
Essa ação dá a exata dimensão do
que se tornou João do Vale no cenário da história da música popular brasileira:
um nome umbilical, reverenciado por poucos que, por altruísmo, interesses
mercadológicos ou outro inconfesso, levantam a bandeira do resgate da sua
grandiosa obra. João do Vale morreu para o Brasil. Descansa em paz.
Para quem não o conhece, recomendo
ler ou ouvir a ótima biografia do cantor, escrita pelo carioca Márcio Paschoal,
“Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará”. Márcio resgata a vida do poeta e o
coloca, com exatidão, no cenário da música e da cultura brasileira dos anos
1970 e 1980, quando João fez, de fato, um sucesso popular. Depois se apagou e
foi se recolhendo, até morrer, em Pedreiras, esquecido pelo país.
E por que João foi tão importante
para o seu tempo e não é para os nossos? Arrisco uma resposta. Em primeiro
lugar, ele foi importante para uma época em que vigia a valorização das coisas
da terra, da cultura popular, dos poetas sertanejos ou locais, do cheiro de
brasilidade e resistência. E João era tudo isso: pobre, negro, pedreiro, analfabeto
e talentoso, criou uma obra feita com as palavras do sertão, com as imagens do
interior, com as metáforas investidas de
protesto. O “Carcará” de João do Vale, levado ao palco no show-peça “Opinião”,
é um hino de protesto e autenticidade brasileira. É a “Asa Branca” de Luís
Gonzaga, esse também um fenomenal poeta
do sertão, também esquecido. Outra coisa: João estava na hora certa no lugar
certo, por isso foi “descoberto”, cantado e cultuado. Foi uma conjugação de
talento, oportunidade e força pessoal, que o levou a ser o que era. Não é mais.
A segunda parte da resposta: João
do Vale foi esquecido porque é próprio dos movimentos culturais a suplantação,
a confecção midiática do presente. Nem todo mundo é Chico Buarque – e esse
mesmo, se pensarmos em artista verdadeiramente popular, vive hoje mais do que
já fez e das bênçãos que os cults lhe
pedem, traduzida em alguns shows, poucos CDs e algumas notinhas nos cadernos
culturais. A mídia também faz a sua parte. Vai trabalhando com o que pode ser
sucesso hoje e retemperando o que pode ser ainda lembrado. Foi o que aconteceu,
uns três anos atrás, com Odair José, que foi “rememorado” num disco-tributo, no
qual cantores pop davam novas roupagens a velhas canções do rei do brega.
Título do CD, nada mais apropriado: “Eu vou tirar você deste lugar”. Não tirou.
O disco foi lançado, vendeu, ele fez alguns shows e voltou à caverna sem som
para onde se mudou. Definitivamente.
No fim da vida, João do Vale vivia
em Pedreiras, onde morreu. Era feliz lá. Jogava seu dominó na praça, estava
cercado pelos poucos amigos e tinha a exata dimensão do que foi para o Brasil e
do que não era mais. Morreu em 1996. Daqui a três anos, por ocasião dos 20 anos
do seu falecimento, talvez seja lembrado de novo. Umbilicalmente.

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