sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Conto:

GABRIEL, QUE GOSTAVA DE LIVROS

Era nas madrugadas que Gabriel se embrenhava pelas páginas dos livros. Em pouco tempo, já tinha uma boa ‘biblioteca de lidos’. Foi depois que Aline o deixou que ele começou a gostar realmente de ler, a buscar os livros por conta própria.

Aline ele conheceu na academia mesmo. Ela foi lá para curar um cansaço repentino. O médico receitou que fizesse exercícios leves. “Esteira e bicicleta já é bom”, disse o doutor.

Leitora voraz. Linda e leitora. Leitora e linda. Ficava na bicicleta com um livro na mão. Ficava na esteira com um livro na mão. Só largava o livro pra fazer o alongamento.

Gabriel olhou aquela menina moreninha, falsa magra, de calça legging azul e blusa branca, com um livro na mão, e ficou admirado. Nunca tinha visto ninguém na academia carregando nada que não fossem as garrafinhas de água ou os headphones enormes. Ou os celulares para as fotos de espelho. Foi se aproximando, se aproximando, puxando conversa.

Em um mês de treinamento nos mesmos horários, estavam namorando. E ficaram namorando por uns quatro, cinco meses, entre equipamentos de ginástica e estantes de livrarias. Com Gabriel, Aline conheceu o poder de outros equipamentos daquela academia, que ela nunca tinha notado. Com Aline, Gabriel ouviu falar de Drummond, Quintana, Vargas Llosa. E tomou contato com eles; primeiro histórias curtas, contos e novelas. Depois, romance. Por último, um livrinho de poemas singelos do Quintana.

Mas o romance foi pro brejo, quando Aline entrou na faculdade e conheceu um colega de turma mais parecido com ela. E, afinal, já estava sarada do cansaço. De Gabriel, ficou e consciência do cuidado com o corpo, com a saúde. E muitos amassos no carro dos pais dele, depois da academia, onde desse. De Aline, ficaram os livros oferecidos nas primeiras páginas para o amado.

E ficou a semente da paixão pelos livros. Era ela que fazia Gabriel varar as madrugadas, na delicadeza das narrativas dos autores que, agora, ele mesmo buscava nas bibliotecas, comprava, pedia emprestado. Ele nunca soube ao certo se a paixão pelos livros era uma forma de jamais esquecer Aline ou apenas uma vontade de viver tudo aquilo, tão belo e tão real, que os livros traziam.



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