domingo, 8 de maio de 2016

CONTO: O PRIMEIRO BEIJO DE CARLA

O primeiro e único beijo que ganhei de Carla foi na porta da casa dela. Era meio-dia, o sol rachando, doendo a cabeça e ardendo os olhos. Ela me disse “então, tchau” e me deu aquele beijo sem nenhuma palavra a mais. Depois me empurrou, porque eu simplesmente fiquei abobalhado, olhando para ela com os olhos que parece que iam saltar. Não entendi nada.

Nem entendi também quando ela me disse, na segunda-feira, que ficou pensando em mim no fim de semana e que queria namorar comigo, porque gostava de mim desde a quinta série. Que já tinha tentado demonstrar mais de cem vezes e que eu “era um retardado” porque nunca tinha percebido. E exigiu uma resposta se eu queria ou não namorar com ela. Ali mesmo, na porta da escola, na entrada da aula.

Eu disse que não sabia responder. Que ela tinha me dado aquele beijo de surpresa e que tinha me perguntado de surpresa também. Então, ela me disse bem séria: “Então, vai tomar no seu cu!”. E saiu correndo rumo às colegas.

Sério, eu nunca tinha percebido que a Carla gostava de mim. Ela nunca demonstrou. Ou eu nunca dei por isso. Eu era muito jovem, tinha uns doze ou treze anos. Ela era um pouco mais velha, pois tinha ficado reprovada. Era linda e tinha um corpão, todos os meninos eram vidrados no corpão dela. E ela sabia. Tanto que só ia pra escola com roupa provocante, antes de exigirem a farda. Até a farda dela era a mais apertada das meninas, acho que ela apertava escondido da mãe. Ficava com uma bunda enorme naquela calça jeans azul. E devia botar algum tipo de enchimento no sutiã, porque era impossível que tivesse aquele peitão tão duro.

Mas eu era um garoto bobo, bobo demais. Apenas olhava quando os outros caras chamavam minha atenção. Sozinho, nem pensava nisso. Estava mais preocupado com o futebol, em entrar pro time da escola.

Só que descobri, da pior maneira, que Carla gostava de mim. Descobri com aquele beijo que não soube retribuir, porque não estava esperando. Foi um dia em que íamos pra casa juntos, isso quase nunca acontecia. Naquele dia calhou de ela ir sozinha e, como moramos na mesma rua, fomos juntos. Nem lembro o que íamos falando, só me lembro dela dizer pra mim, “eu fico aqui” e completar: “toma um beijinho”. E tascou aquele beijo na minha boca e depois me empurrou: “Vai agora”.

Nunca mais Carla me saiu da cabeça. E ela nunca mais falou comigo desde então. Acho que ficou chateada, ferida na sua autoestima, no seu brio de menina desejada pela escola inteira. Afinal, eu era talvez o único cara que nunca tinha dito uma gracinha com ela, eu era muito inocente pra essas coisas. Os caras da minha turma até faziam campeonato de punheta pra ela. Eu sabia porque eles me diziam depois.

Havia até uma aposta pra ver quem ia tirar o cabaço dela. Que, claro, não deu em nada.

Eu nunca disse a ninguém o que se passou entre mim e Carla. E acho que nem ela, porque nunca houve o menor rumor disso na escola, até terminarmos o primeiro grau e nos separarmos.

Isso aconteceu na sétima série. Depois da oitava série, ela foi embora. Acho que foi morar com uma tia pra fazer o científico na capital. Me disseram um dia desses, num encontro com alguns amigos daquela época, que alguém viu ela trabalhando numa loja, numa dessas lojas de shopping, na capital.

Não sei se casou, não sei se tá solteira, não sei se tem filhos, se se deu bem ou mal na vida. Deve estar ali perto dos trinta já, porque eu já tenho vinte e sete.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo diferente. Eu teria dito “sim” pra ela, na porta daquela escola. Eu teria retribuído aquele beijo com outro, ainda mais fundo e demorado. Eu teria namorado com ela o resto da sétima série e a oitava série toda. E eu teria ganhado aquele campeonato do cabaço.



(Porto Alegre, 10.04.2016)

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