AMIZADE.COM
Sempre foi assim: amig@s são amig@s,
não importa a distância. Amig@s são amig@s, não importam os meios que utilizem
para consolidar os laços afetivos e de cumplicidade (sim, pois esses são os
dois alicerces de toda amizade) que vão sustentar essa relação, ad infinitum.
Já foram os tambores, os
pombos-correio, os meninos de recado, as longas cartas, os bilhetinhos, os
cadernos trocados, os papeis de carta personalizados, os telefonemas de
orelhão, depois de aparelho com disco, as camisas escritas no final do ano, os
cartõezinhos, tantas outras modernidades. Já foram os artefatos de um tempo que
parece longe: icq, flogão, bate-papo, msn, Orkut. Hoje são as tecnologias deste
tempo: o sms, os recados via skype, whatsap, Facebook, Twitter. Cada tempo
constrói suas ferramentas para manter as amizades acesas. Para dar-lhes
consistência e identidade.
Uma coisa não muda. Amig@s têm que
saber se ouvir. Amig@s não têm que ter pruridos de dizer o que pensam, mesmo
que isso contrarie os desejos, projetos, ambições, sonhos do outro. Um@ amig@ é como o grilo falante do Pinóquio.
É meio superego, quando precisa ser. Mas também é travesseiro, é sofá, é muleta,
é enciclopédia, é banco, é mesa de jogos, é lava-roupa suja. Amizade é uma dimensão muito ampla e muito
densa que une duas pessoas.
Por isso não concordo com o termo
“amizade sincera”. Para mim, amizade sincera é uma redundância, um pleonasmo vicioso,
algo tão estranho como “subir para cima”, “ver com os próprios olhos”,
“acabamento final” e outras besteirices que a gente ouve e lê. Se você tem
uma relação com alguém que não seja
sincera, não chame esse alguém de amig@, chame de qualquer outra coisa: colega,
conhecido, pareceiro (como dizia minha vó), conterrâneo (se nasceram no mesmo
torrão). Não gaste um vocábulo que tem um sentido tão lindo, tão bíblico (“há
amigos que são mais chegados que irmãos”, em Provérbios), tão musical (“amigo é
coisa pra se guardar/ debaixo de sete chaves”, em Canção da América, de Milton
Nascimento) com quem não está à altura dele. Amig@ é amig@. Ponto final. Palavra
que não precisa de complemento. Como nos verbos intransitivos. Mais ou menos o
que disse (ou quis dizer) Mário de Andrade com o seu “Amar, verbo
intransitivo”.
Para criar laços de amizade, não
precisa estar próximo. Só precisa ter um sentimento que insiste em irmanar-se
ao outro. O mundo voltou a ser um pangeia, não há mais separação nem
dificuldade de estabelecer laços reais – mesmo que seja por meios virtuais. Você
está no Brasil e seu/sua amig@ no Japão?
E qual o problema? O Japão e o Brasil estão na mesma rede e, dependendo da
qualidade da sua net (no Japão deve ser mais ágil, é uma suposição só...), a
segundos apenas de uma resposta. Você pode escrever para @ amig@, ouvi-l@,
vê-l@ se mexendo na sua frente. O que é mais real do que isso? Talvez tocar,
sentir o cheiro...mas estamos chegando lá. O sentimento que poderá se formar
entre vocês é exatamente o mesmo daquele que se formaria se ele fosse seu
vizinho de rua ou de condomínio ou de porta. Repito: se amizade for. De fato.
Claro que não estou falando, quando
falo de amizade, daqueles 1.415 amigos que você tem no Facebook. O Facebook
desqualificou o termo amizade, virou uma catacrese lá. Ninguém consegue ter 1.415
amigos. Você terá, se for uma pessoa de
sorte, talvez 1% de amigos dessa avalanche de pessoas que estão na sua rede –
muitas das quais você nem sabe, efetivamente, quem sejam. Amigos, desse
conjunto todo, são aqueles que conhecem você mais de perto, que dividem a sua
vida (numa direção e noutra, claro), com quem você pode contar (e não que você
pode apenas contar...).
Sou tradicionalista. Em tempos de
amores líquidos, amizades têm que ser sólidas – não importa a plataforma em que
elas se sustentem. Se não puder ser cara a cara, que seja Face a Face. Mas que
seja, fundamentalmente.

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