segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Crônica:

AMIZADE.COM


Sempre foi assim: amig@s são amig@s, não importa a distância. Amig@s são amig@s, não importam os meios que utilizem para consolidar os laços afetivos e de cumplicidade (sim, pois esses são os dois alicerces de toda amizade) que vão sustentar essa relação, ad infinitum.

Já foram os tambores, os pombos-correio, os meninos de recado, as longas cartas, os bilhetinhos, os cadernos trocados, os papeis de carta personalizados, os telefonemas de orelhão, depois de aparelho com disco, as camisas escritas no final do ano, os cartõezinhos, tantas outras modernidades. Já foram os artefatos de um tempo que parece longe: icq, flogão, bate-papo, msn, Orkut. Hoje são as tecnologias deste tempo: o sms, os recados via skype, whatsap, Facebook, Twitter. Cada tempo constrói suas ferramentas para manter as amizades acesas. Para dar-lhes consistência e identidade.

Uma coisa não muda. Amig@s têm que saber se ouvir. Amig@s não têm que ter pruridos de dizer o que pensam, mesmo que isso contrarie os desejos, projetos, ambições, sonhos do outro.  Um@ amig@ é como o grilo falante do Pinóquio. É meio superego, quando precisa ser. Mas também é travesseiro, é sofá, é muleta, é enciclopédia, é banco, é mesa de jogos, é lava-roupa suja.  Amizade é uma dimensão muito ampla e muito densa que une duas pessoas.

Por isso não concordo com o termo “amizade sincera”. Para mim, amizade sincera é uma redundância, um pleonasmo vicioso, algo tão estranho como “subir para cima”, “ver com os próprios olhos”, “acabamento final” e outras besteirices que a gente ouve e lê. Se você tem uma  relação com alguém que não seja sincera, não chame esse alguém de amig@, chame de qualquer outra coisa: colega, conhecido, pareceiro (como dizia minha vó), conterrâneo (se nasceram no mesmo torrão). Não gaste um vocábulo que tem um sentido tão lindo, tão bíblico (“há amigos que são mais chegados que irmãos”, em Provérbios), tão musical (“amigo é coisa pra se guardar/ debaixo de sete chaves”, em Canção da América, de Milton Nascimento) com quem não está à altura dele. Amig@ é amig@. Ponto final. Palavra que não precisa de complemento. Como nos verbos intransitivos. Mais ou menos o que disse (ou quis dizer) Mário de Andrade com o seu “Amar, verbo intransitivo”.

Para criar laços de amizade, não precisa estar próximo. Só precisa ter um sentimento que insiste em irmanar-se ao outro. O mundo voltou a ser um pangeia, não há mais separação nem dificuldade de estabelecer laços reais – mesmo que seja por meios virtuais. Você está no Brasil e seu/sua  amig@ no Japão? E qual o problema? O Japão e o Brasil estão na mesma rede e, dependendo da qualidade da sua net (no Japão deve ser mais ágil, é uma suposição só...), a segundos apenas de uma resposta. Você pode escrever para @ amig@, ouvi-l@, vê-l@ se mexendo na sua frente. O que é mais real do que isso? Talvez tocar, sentir o cheiro...mas estamos chegando lá. O sentimento que poderá se formar entre vocês é exatamente o mesmo daquele que se formaria se ele fosse seu vizinho de rua ou de condomínio ou de porta. Repito: se amizade for. De fato.

Claro que não estou falando, quando falo de amizade, daqueles 1.415 amigos que você tem no Facebook. O Facebook desqualificou o termo amizade, virou uma catacrese lá. Ninguém consegue ter 1.415 amigos. Você terá, se for uma  pessoa de sorte, talvez 1% de amigos dessa avalanche de pessoas que estão na sua rede – muitas das quais você nem sabe, efetivamente, quem sejam. Amigos, desse conjunto todo, são aqueles que conhecem você mais de perto, que dividem a sua vida (numa direção e noutra, claro), com quem você pode contar (e não que você pode apenas contar...).


Sou tradicionalista. Em tempos de amores líquidos, amizades têm que ser sólidas – não importa a plataforma em que elas se sustentem. Se não puder ser cara a cara, que seja Face a Face. Mas que seja, fundamentalmente.

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