MACHADO DE ASSIS: CEM ANOS DE VIDA!
O leitor (des)avisado há de achar estranho esse título, pois é público e
notório, ainda mais nesses tempos em que voltou à baila e virou moda (cult,
registre-se!) falar de Machado de Assis, que ele nasceu em 1839, no Morro do
Livramento, no Rio de Janeiro. Fiz as contas na minha maquininha que apita: são
169 anos. Desses, 69 passados entre os seus e mais 100 (esses que me
interessam), entre os outros seus – estes, por devoção, admiração, encanto por
sua obra.
Nunca houve um autor na literatura brasileira do quilate de Machadinho, o
Bruxo do Cosme Velho – referência ao bairro onde passou grande parte da sua vida. E isso se considera
não somente pela vastidão da sua obra, enfeixada em cerca de 30 livros
publicados em vida e mais algumas dezenas como obras póstumas e reedições. Nem
em razão da multiplicidade de gêneros por que se aventurou: poesias, contos,
romances, crítica, crônica, discursos. Machado de Assis é fenomenal, sobretudo,
pelo que escreveu – pela essência da sua literatura, pela densidade dos
personagens que criou e imortalizou, pela profundidade da observação que
imprimia ao seu locus ao seu ethos – essencialmente cariocas,
pequeno-burgueses e “modernos” na apresentação das suas aventuras e
desventuras.
Talvez seja ele o escritor brasileiro mais estudado, dentro e fora do
país. Grandes intelectuais já lhe renderam páginas e páginas de ensaios: Josué
Montello, Roberto Schwarz, Lúcia-Miguel Pereira, Brito Broca, José Veríssimo.
Todos no esforço de lhe atribuir um valor de singularidade, de lhe perscrutar
os personagens ou de sobrelevar as suas peculiaridades – contam os biógrafos e
críticos que ele era mulato, gago, epilético e estéril, atributos que, na época em que viveu, seriam mais do que suficientes para não lhe permitir
passar de um operário de gráfica, que era o que fazia no início da sua
mocidade.
Mas Machado estava “condenado” ao sucesso, à singularidade. A ele estava
reservado o lugar mais alto da literatura brasileira. Instigante, inovador
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, quando o escritor tinha 42
anos, já gozando, portanto, de uma notoriedade pelos trabalhos publicados anteriormente
e com uma confortável carreira na burocracia do Império, não tem pareio quando
se analisa a originalidade do estilo que apresentou e imprimiu ao nosso
realismo, diferente do realismo europeu); profundo e meticuloso na construção
de personagens emblemáticas (Capitu, Bentinho, o próprio Brás Cubas, Marcela,
Quincas Borba, o Conselheiro Aires, Rita de “A Cartomante”, Conceição de “Missa
do Galo”...); quieto, ensimesmado (consta que ele não gostava do que denominava
“sujeito derramado”, aquela pessoa que “fala pelos cotovelos”, que diz mais do
que o pensamento manda), Machado soube construir, com persistência, um caminho de glórias literárias, que culminou
com a sua assunção ao posto de presidente da Academia Brasileira de Letras que,
depois da sua morte, reverteu-se para presidente perpétuo e a casa passou a
chamar-se, com justiça, “Casa de Machado de Assis”.
Por tudo isso, não posso concordar com o fato de que, neste 29 de
setembro, estamos lembrando os 100 anos da morte do nosso maior escritor.
Prefiro comemorar cem anos de vida – uma
vida entre os que o seguem pelas páginas dos livros que tão belamente
arquitetou – que, somados aos que ele efetivamente viveu, consolidam o seu
caráter de verdadeiro imortal que é.

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