segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resenha:

MACHADO DE ASSIS: CEM ANOS DE VIDA!




O leitor (des)avisado há de achar estranho esse título, pois é público e notório, ainda mais nesses tempos em que voltou à baila e virou moda (cult, registre-se!) falar de Machado de Assis, que ele nasceu em 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Fiz as contas na minha maquininha que apita: são 169 anos. Desses, 69 passados entre os seus e mais 100 (esses que me interessam), entre os outros seus – estes, por devoção, admiração, encanto por sua obra.

Nunca houve um autor na literatura brasileira do quilate de Machadinho, o Bruxo do Cosme Velho – referência ao bairro onde passou  grande parte da sua vida. E isso se considera não somente pela vastidão da sua obra, enfeixada em cerca de 30 livros publicados em vida e mais algumas dezenas como obras póstumas e reedições. Nem em razão da multiplicidade de gêneros por que se aventurou: poesias, contos, romances, crítica, crônica, discursos. Machado de Assis é fenomenal, sobretudo, pelo que escreveu – pela essência da sua literatura, pela densidade dos personagens que criou e imortalizou, pela profundidade da observação que imprimia ao seu locus ao seu ethos – essencialmente cariocas, pequeno-burgueses e “modernos” na apresentação das suas aventuras e desventuras.

Talvez seja ele o escritor brasileiro mais estudado, dentro e fora do país. Grandes intelectuais já lhe renderam páginas e páginas de ensaios: Josué Montello, Roberto Schwarz, Lúcia-Miguel Pereira, Brito Broca, José Veríssimo. Todos no esforço de lhe atribuir um valor de singularidade, de lhe perscrutar os personagens ou de sobrelevar as suas peculiaridades – contam os biógrafos e críticos que ele era mulato, gago, epilético e estéril,  atributos que, na época em que viveu, seriam  mais do que suficientes para não lhe permitir passar de um operário de gráfica, que era o que fazia no início da sua mocidade.

Mas Machado estava “condenado” ao sucesso, à singularidade. A ele estava reservado o lugar mais alto da literatura brasileira. Instigante, inovador (Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, quando o escritor tinha 42 anos, já gozando, portanto, de uma notoriedade pelos trabalhos publicados anteriormente e com uma confortável carreira na burocracia do Império, não tem pareio quando se analisa a originalidade do estilo que apresentou e imprimiu ao nosso realismo, diferente do realismo europeu); profundo e meticuloso na construção de personagens emblemáticas (Capitu, Bentinho, o próprio Brás Cubas, Marcela, Quincas Borba, o Conselheiro Aires, Rita de “A Cartomante”, Conceição de “Missa do Galo”...); quieto, ensimesmado (consta que ele não gostava do que denominava “sujeito derramado”, aquela pessoa que “fala pelos cotovelos”, que diz mais do que o pensamento manda), Machado soube construir, com persistência,  um caminho de glórias literárias, que culminou com a sua assunção ao posto de presidente da Academia Brasileira de Letras que, depois da sua morte, reverteu-se para presidente perpétuo e a casa passou a chamar-se, com justiça, “Casa de Machado de Assis”.

Por tudo isso, não posso concordar com o fato de que, neste 29 de setembro,   estamos lembrando  os 100 anos da morte do nosso maior escritor. Prefiro comemorar cem anos de vida – uma  vida entre os que o seguem pelas páginas dos livros que tão belamente arquitetou – que, somados aos que ele efetivamente viveu, consolidam o seu caráter  de verdadeiro imortal que é.



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