segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Conto:

ALICE

“Alice me consolava”. A frase saiu de dentro de um fiapo de voz, mais abafada ainda por causa da máscara de ar. Tia Dorinha teve que pôr o ouvido quase colado à boca de José para ouvi-la. Depois que ele disse, olhou para ela com uma expressão de cumplicidade e ela não precisou ouvir mais nada para entender o recado, transmitido ainda, como um reforço, pelo aperto que a mão dela sofreu. No dia seguinte, Tia Dorinha começava a sua busca louca por Alice. E tinha que ser rápido.

Alice não tinha completado vinte e um anos quando encontrou José pela primeira vez. Ela estava no balcão da biblioteca, esperando para devolver um livro, quando ele chegou. Ficou atrás dela também com uma pilha de livros, falando ao celular. Ao que tudo indica, discutia com alguém, ela entendeu por causa dos muitos “para com isso” que ele tinha que dizer, abafado. De vez em quando, a atendente fazia “shiiii” e olhava pra ele, que se desculpava com um aceno de cabeça, mas continuava a luta com o alguém do outro lado da linha. Até que Alice ouviu “a bateria vai cair” e ele desligando e, agora sim, se desculpando com a atendente e com ela, Alice. “Desculpe o barulho, meninas. Era uma coisa urgente”.  A atendente fez uma cara feia, mas Alice deu um sorrisinho, como se entendesse exatamente o sentido daquela frase como um eufemismo.

José viu o livro de Max Weber na mão daquela menina loirinha e não pôde deixar de comentar, era o seu sociólogo preferido. “Achei um pouco complicado”, ela disse, virando-se para ele. “Os calouros costumam achar mesmo”, ele disse para tentar ser simpático e engraçado, ao mesmo tempo. “Segundo semestre, já”, foi a resposta dela. “E você?” Ele estava “na boca da espirradeira”, como costumava dizer no bar pros amigos. “Monografia”. Então tava explicado aquele monte de livro, ela pensou. “Um dia vou chegar nela”, Alice suspirou. “Pois vai pensando, que chega rápido, viu?”. Outra gracinha? Um conselho? A atendente liberou Alice e ela saiu, não sem antes dizer “Obrigada pela dica”.

Outras vezes na biblioteca, uma vez no restaurante (ela cercada de amigas, ele apenas acenou, não quis se aproximar, embora houvesse um lugar vazio, e ao lado dela), mais uma vez na parada de ônibus (ela estava esperando a condução, ele passou de bicicleta com uma menina, os dois paramentados, pareciam atletas; ele deu uma buzinadinha e uma piscadela; ela disse “oi”). Só quando se encontraram numa palestra do Dia da Mulher (José estudava Sociologia e estava fazendo a monografia em gênero e raça) e sentaram juntos, ele teve coragem de perguntar o nome dela. Trocaram nomes, telefones, e-mails, Facebook, Twitter, só não disseram onde moravam e se tinham parceiros. Mas depois da palestra saíram pra comer um sanduíche. Alice não fazia Sociologia, fazia História. Mas estava interessadíssima em conhecer mais os sociólogos. Todos os que José quisesse lhe apresentar.

Conversas diárias, ligações, sms, encontros na cantina, idas ao cinema. Em três semanas, estavam apaixonados. Só então ela confessou que tinha um namorado, que ele trabalhava fora e viria para o feriado da Semana Santa. Só então José disse que tinha terminado um romance há dois anos e, desde então, não tinha encontrado ninguém por quem realmente se interessasse. Mas que iria esperar a decisão dela.

No feriado da Semana Santa, Alice sumiu. José respeitou. Na segunda, ela mandou um sms dizendo que queria vê-lo. Ele devolveu dizendo que estava com a mãe doente, que não iria à faculdade naquela semana, que ligava depois. Tudo mentira, ele tinha ficado magoado.

A semana da mãe doente se estendeu por quase vinte dias. José não ligou, não deu nenhum sinal de vida. Alice entendeu. Foram se encontrar, de novo, na fila do restaurante. Uma coisa estranha, já. Parecia que algo estava fora do lugar.

Marcaram um cinema, que se estendeu para um bar. Lá José passou da conta e despejou nela toda a mágoa que tinha sentido do feriado. “Falta de consideração não ligar, não dar nenhuma notícia. Um sms ao menos”. Alice, depois de muito tempo calada, confessou que o namorado era noivo, era militar e que tinha vindo de Brasília para acertar os detalhes do casamento.

José acordou com uma dor de cabeça enorme. Não se lembra como tinha chegado em casa. Não sabe se Alice foi deixá-lo. Só consegue lembrar até a confissão do noivado. “Namoro com o Carlos desde os meus 16 anos, José. Esse casamento já tá marcado há uns seis meses, pelo menos. Ele só tava esperando eu terminar o segundo semestre pra tentar a minha transferência pra UNB. Entende, porra”. A frase ficou badalando na sua cabeça o resto do dia. “Que se foda. Que seja feliz com este militarzinho de merda. Que vá pra puta que pariu com ele e esse casamentinho escroto.” Ele escreveu isso num email pra ela, “o último”, mas não mandou. Apagou, deletou ela do seu rol de amigos, deletou de tudo e desligou o PC.

A monografia, esquecida há quase um mês e meio, foi retomada. Sem tesão, ia se arrastando, mas tinha que terminar.

Alice sumiu. Sumiu pra sempre. Parece que o casamento se consumou mesmo, é o que tudo levava a crer.

A defesa da monografia veio, passou. A formatura veio, passou. O baile, enfim.

Alegria, muita comida, bebida, festa. As famílias reunidas. Na volta pra casa, um acidente de carro. “Um estudante perdeu a direção do seu fiat Uno e bateu numa parada de ônibus, de madrugada. Felizmente, a parada estava vazia e ninguém se feriu. Mas o estudante está na UTI, em estado gravíssimo”, disseram os sites. O estudante era José.

Ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido. José estava sozinho no carro. Um taxista que passava depois pelo local chamou o socorro. Dez dias na UTI até conseguir acordar. Na hora em que acordou, chamou por Tia Dorinha, com quem morava. E a única pessoa que sabia de Alice.

Tia Dorinha era uma espécie de mãe de José. Quando ele nasceu, ela cuidou dele. Com 15 anos, veio definitivamente morar com ela, para estudar. Moravam só os dois. Dividiam tudo: as despesas da casa (a mãe mandava uma mesada), as tarefas e as confidências. Apesar da diferença de idade, Tia Dorinha o entendia.

Entendia tão bem que não titubeou quando ele lhe pediu com o olhar para procurar por Alice e, se fosse possível, trazê-la. “Ela é a mulher da minha vida, Tia”, ainda lembrava de José dizendo isso, enquanto cambaleava, bêbado, no dia em que chegou em casa trazido por Alice. No dia em que ela lhe disse que era noiva.

Tia Dorinha farejou Alice na faculdade, nas redes sociais, entre os colegas de sala dele, entre as colegas de aula dela. Achou a família dela e, dois dias depois, ligou pra ela em Brasília. Foi um choque quando ela ouviu daquela voz tristonha o pedido para voltar e vê-lo. “O mais depressa que você puder, minha filha”, foi como a conversa encerrou.

Tia Dorinha reconheceu Alice no corredor do hospital, de longe. Quando ela chegou perto, foi acolhida num forte abraço. “E ele?”, ela perguntou. “Os médicos não dão muitas esperanças”, foi a resposta, chorosa, de Tia Dorinha. “Daqui a pouco abre pras visitas. Hoje eu não vou entrar. Você vai no meu lugar”.

Foi uma visita silenciosa. Alice não conseguia dizer nada. José não acreditava que ela estava ali. Ficou olhando pra ela, um olhar fixo. Ela pegou na mão dele, com ternura. Ele acariciou a mão dela, depois ficou imóvel um tempo razoável. A mão da aliança estava na boca. Ninguém disse nada.


Alice saiu da UTI, abraçou Tia Dorinha, deixou os contatos. Depois se foi. Dali a um mês, ela recebeu a notícia de que José tinha morrido. Tia Dorinha que mandou um sms, que terminava assim: “Ele se foi feliz. Por você”.

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