ALICE
“Alice me consolava”. A frase saiu
de dentro de um fiapo de voz, mais abafada ainda por causa da máscara de ar. Tia
Dorinha teve que pôr o ouvido quase colado à boca de José para ouvi-la. Depois
que ele disse, olhou para ela com uma expressão de cumplicidade e ela não
precisou ouvir mais nada para entender o recado, transmitido ainda, como um
reforço, pelo aperto que a mão dela sofreu. No dia seguinte, Tia Dorinha
começava a sua busca louca por Alice. E tinha que ser rápido.
Alice não tinha completado vinte e
um anos quando encontrou José pela primeira vez. Ela estava no balcão da
biblioteca, esperando para devolver um livro, quando ele chegou. Ficou atrás
dela também com uma pilha de livros, falando ao celular. Ao que tudo indica,
discutia com alguém, ela entendeu por causa dos muitos “para com isso” que ele
tinha que dizer, abafado. De vez em quando, a atendente fazia “shiiii” e olhava
pra ele, que se desculpava com um aceno de cabeça, mas continuava a luta com o
alguém do outro lado da linha. Até que Alice ouviu “a bateria vai cair” e ele
desligando e, agora sim, se desculpando com a atendente e com ela, Alice.
“Desculpe o barulho, meninas. Era uma coisa urgente”. A atendente fez uma cara feia, mas Alice deu
um sorrisinho, como se entendesse exatamente o sentido daquela frase como um
eufemismo.
José viu o livro de Max Weber na
mão daquela menina loirinha e não pôde deixar de comentar, era o seu sociólogo
preferido. “Achei um pouco complicado”, ela disse, virando-se para ele. “Os
calouros costumam achar mesmo”, ele disse para tentar ser simpático e
engraçado, ao mesmo tempo. “Segundo semestre, já”, foi a resposta dela. “E
você?” Ele estava “na boca da espirradeira”, como costumava dizer no bar pros
amigos. “Monografia”. Então tava explicado aquele monte de livro, ela pensou. “Um
dia vou chegar nela”, Alice suspirou. “Pois vai pensando, que chega rápido,
viu?”. Outra gracinha? Um conselho? A atendente liberou Alice e ela saiu, não
sem antes dizer “Obrigada pela dica”.
Outras vezes na biblioteca, uma vez
no restaurante (ela cercada de amigas, ele apenas acenou, não quis se
aproximar, embora houvesse um lugar vazio, e ao lado dela), mais uma vez na
parada de ônibus (ela estava esperando a condução, ele passou de bicicleta com
uma menina, os dois paramentados, pareciam atletas; ele deu uma buzinadinha e
uma piscadela; ela disse “oi”). Só quando se encontraram numa palestra do Dia
da Mulher (José estudava Sociologia e estava fazendo a monografia em gênero e
raça) e sentaram juntos, ele teve coragem de perguntar o nome dela. Trocaram
nomes, telefones, e-mails, Facebook, Twitter, só não disseram onde moravam e se
tinham parceiros. Mas depois da palestra saíram pra comer um sanduíche. Alice
não fazia Sociologia, fazia História. Mas estava interessadíssima em conhecer
mais os sociólogos. Todos os que José quisesse lhe apresentar.
Conversas diárias, ligações, sms,
encontros na cantina, idas ao cinema. Em três semanas, estavam apaixonados. Só
então ela confessou que tinha um namorado, que ele trabalhava fora e viria para
o feriado da Semana Santa. Só então José disse que tinha terminado um romance
há dois anos e, desde então, não tinha encontrado ninguém por quem realmente se
interessasse. Mas que iria esperar a decisão dela.
No feriado da Semana Santa, Alice
sumiu. José respeitou. Na segunda, ela mandou um sms dizendo que queria vê-lo.
Ele devolveu dizendo que estava com a mãe doente, que não iria à faculdade
naquela semana, que ligava depois. Tudo mentira, ele tinha ficado magoado.
A semana da mãe doente se estendeu
por quase vinte dias. José não ligou, não deu nenhum sinal de vida. Alice
entendeu. Foram se encontrar, de novo, na fila do restaurante. Uma coisa
estranha, já. Parecia que algo estava fora do lugar.
Marcaram um cinema, que se estendeu
para um bar. Lá José passou da conta e despejou nela toda a mágoa que tinha
sentido do feriado. “Falta de consideração não ligar, não dar nenhuma notícia.
Um sms ao menos”. Alice, depois de muito tempo calada, confessou que o namorado
era noivo, era militar e que tinha vindo de Brasília para acertar os detalhes
do casamento.
José acordou com uma dor de cabeça
enorme. Não se lembra como tinha chegado em casa. Não sabe se Alice foi
deixá-lo. Só consegue lembrar até a confissão do noivado. “Namoro com o Carlos
desde os meus 16 anos, José. Esse casamento já tá marcado há uns seis meses,
pelo menos. Ele só tava esperando eu terminar o segundo semestre pra tentar a
minha transferência pra UNB. Entende, porra”. A frase ficou badalando na sua
cabeça o resto do dia. “Que se foda. Que seja feliz com este militarzinho de
merda. Que vá pra puta que pariu com ele e esse casamentinho escroto.” Ele
escreveu isso num email pra ela, “o último”, mas não mandou. Apagou, deletou
ela do seu rol de amigos, deletou de tudo e desligou o PC.
A monografia, esquecida há quase um
mês e meio, foi retomada. Sem tesão, ia se arrastando, mas tinha que terminar.
Alice sumiu. Sumiu pra sempre.
Parece que o casamento se consumou mesmo, é o que tudo levava a crer.
A defesa da monografia veio, passou.
A formatura veio, passou. O baile, enfim.
Alegria, muita comida, bebida,
festa. As famílias reunidas. Na volta pra casa, um acidente de carro. “Um
estudante perdeu a direção do seu fiat Uno e bateu numa parada de ônibus, de
madrugada. Felizmente, a parada estava vazia e ninguém se feriu. Mas o
estudante está na UTI, em estado gravíssimo”, disseram os sites. O estudante
era José.
Ninguém sabia ao certo o que tinha
acontecido. José estava sozinho no carro. Um taxista que passava depois pelo
local chamou o socorro. Dez dias na UTI até conseguir acordar. Na hora em que
acordou, chamou por Tia Dorinha, com quem morava. E a única pessoa que sabia de
Alice.
Tia Dorinha era uma espécie de mãe
de José. Quando ele nasceu, ela cuidou dele. Com 15 anos, veio definitivamente
morar com ela, para estudar. Moravam só os dois. Dividiam tudo: as despesas da
casa (a mãe mandava uma mesada), as tarefas e as confidências. Apesar da
diferença de idade, Tia Dorinha o entendia.
Entendia tão bem que não titubeou
quando ele lhe pediu com o olhar para procurar por Alice e, se fosse possível,
trazê-la. “Ela é a mulher da minha vida, Tia”, ainda lembrava de José dizendo
isso, enquanto cambaleava, bêbado, no dia em que chegou em casa trazido por
Alice. No dia em que ela lhe disse que era noiva.
Tia Dorinha farejou Alice na
faculdade, nas redes sociais, entre os colegas de sala dele, entre as colegas
de aula dela. Achou a família dela e, dois dias depois, ligou pra ela em
Brasília. Foi um choque quando ela ouviu daquela voz tristonha o pedido para
voltar e vê-lo. “O mais depressa que você puder, minha filha”, foi como a
conversa encerrou.
Tia Dorinha reconheceu Alice no
corredor do hospital, de longe. Quando ela chegou perto, foi acolhida num forte
abraço. “E ele?”, ela perguntou. “Os médicos não dão muitas esperanças”, foi a
resposta, chorosa, de Tia Dorinha. “Daqui a pouco abre pras visitas. Hoje eu
não vou entrar. Você vai no meu lugar”.
Foi uma visita silenciosa. Alice
não conseguia dizer nada. José não acreditava que ela estava ali. Ficou olhando
pra ela, um olhar fixo. Ela pegou na mão dele, com ternura. Ele acariciou a mão
dela, depois ficou imóvel um tempo razoável. A mão da aliança estava na boca. Ninguém
disse nada.
Alice saiu da UTI, abraçou Tia
Dorinha, deixou os contatos. Depois se foi. Dali a um mês, ela recebeu a
notícia de que José tinha morrido. Tia Dorinha que mandou um sms, que terminava
assim: “Ele se foi feliz. Por você”.

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