A SAPATINHA
DO SEBO
Ele leu num sebo, em Curitiba,
essas primeiras palavras de um conto desses autores modernos, de quem ele não
lembrava o nome: “Foi aí que ele decidiu pedir à sapatinha do sebo pra morar
com ele”. Ou algo assim.
Estava se vendo no espelho. O puto
do autor contou a história dele, que tinha sido apaixonado, justamente, por uma sapatinha
graciosa que trabalhava numa livraria – não era sebo, era de novos.
Linda, linda. Meio indiazinha,
cabelinho preto liso, corpão todo desenhado, mas baixinha. Ele a viu pela
primeira vez e ficou tarado por ela. Viu no bandejão da faculdade. Ela numa
mesa cheia de amigas, numa conversa animada. Não parou de olhar para ela, que
uma hora virou de lado e grudou os olhos nele também. Mas não esboçou reação,
estava mais interessada na loirinha que lhe passava a mão no rosto. Voltou a
atenção pras amigas e o papo continuou. Ele saiu olhando para trás.
Encontrou-a na parada de ônibus, na
saída do campus, dois dias depois. Ela sozinha. Abriu o espaço no banco da
parada, mas ela não sentou. Deve ter reconhecido. O ônibus chegou e eles
subiram, ela na frente. Deu para vê-la de costas, ficou ainda mais tarado, ela
era a perfeição em forma de corpo de mulher. Ela sentou na frente, ele não quis
sentar no banco ao lado, que estava vazio. Achou meio invasivo. Ficou em pé, um
pouco atrás.
Descobriu, perguntando para umas
meninas que a conheciam, que ela trabalhava numa livraria no centro da cidade.
Quando uma das meninas percebeu as intenções dele, tratou logo de avisar: “A
fruta que você gosta ela come até o caroço”. Gelou. Mas foi em frente: “Pode
ser gilete”.
Foi lá. Encontrou-a com roupa de
trabalho – calça jeans, camisa polo, um crachá com foto sorrindo e o nome embaixo: “Fabíola”.
Deu boa tarde, perguntou se tinha
um livro tal, fingiu que nunca a tinha visto. “Acho que nos conhecemos”, ela
disse, com o livro na mão para ele. “Da faculdade, eu acho”, ele respondeu
folheando. “Muito prazer, Fabíola, eu sou o Pedro”.
A conversa rolou fácil. Para sorte
dele, a loja estava vazia e puderam ficar de bobeira. Ele disse que fazia
Engenharia, ela que fazia História. Ele disse que morava numa república de
garotos da mesma cidade que ele, ela que estava procurando uma vaga numa
pensão, porque morava com uma tia e a relação tinha azedado. Ele tomou coragem
e pediu o celular dela, com a desculpa de ajudar a procurar a vaga.
Mentiu. Na verdade, morava sozinho
numa quitinete, perto da faculdade. Os pais o mantinham lá, com uma mesada e
coisas básicas: uma geladeira usada, um fogão duas bocas, um colchão sem cama,
uma mesa e apetrechos de cozinha. Ele almoçava e jantava na faculdade todos os
dias, exceto domingos.
Na hora em que saiu da livraria,
ele tomou a decisão de convidá-la para morar com ele.
Ligou. Ela não atendeu. Ligou dois
dias depois, nada. Não a encontrou mais no bandejão. Foi na livraria, lá soube
que ela tinha viajado às pressas para a cidade da mãe dela, parece que alguém estava
moribundo por lá.
Era a mãe. Morreu num acidente de
carro. Ele soube por uma amiga comum, que encontrou numa festa da faculdade. As
meninas não conseguiam falar com ela mais, o celular fora de área direto.
Ela voltou dois meses depois.
Abatida, mas conformada. Ele a encontrou na livraria. Não disse a ela, mas foi
lá todas as semanas, tentando ver se já tinha voltado. Comprou seis livros
novos.
Aceitou sair com ele para um chope.
Nessa noite bebeu demais, disse que era sapata, que gostava de mulher, que ele
era bonito, que se ela fosse fêmea dava para ele. Ele tentou beijá-la. Ela
pegou no saco dele com força e disse “Não gosto. Meu negócio é outro”.
Ela estava na pior, a mãe era o seu
esteio. Daí ele fez o convite. Ela disse que não. “Imagina, fora de propósito”.
Ele insistiu. Ela disse “tá bom, vou pensar”. “Tu não paga nada. Fica só por um
tempo, até as coisas melhorarem pro teu lado”.
Ela foi. Chegou num domingo,
chuvinha fina. Ele foi buscá-la na esquina, pegou as sacolas, ela agradeceu. Subiram.
Ele tinha comprado um colchão novo e posto da sala. “Pra você, presente de
aniversário”, brincou. Comprou também uma cômoda, usada, de um vizinho que
estava voltando para a terra natal, encheu o saco de fazer matemática e ia
cuidar dos negócios do pai. Mostrou rapidamente a casa, disse que ela podia
ficar à vontade, “pode até trazer namoradas pra cá, na boa. Só tem que avisar
pra eu deixar vocês sozinhas”. Ela sorriu, meio constrangida.
Comeram um macarrão que ele tinha
feito, com Coca-Cola, ficaram vendo tv um tempo, depois ele deu boa noite e foi
para o quarto. Ela se trocou e deitou no colchão novo.
Um dia ele entrou em casa e a pegou
se trocando na sala. Fez de conta que não viu nada, fechou a porta rápido e
esperou lá fora um tempo. Depois entrou e se trancou no quarto. Naquela noite,
masturbou-se lembrando dela nua.
Não conseguia parar de pensar nela.
E tinha a convicção de que ela não era sapata, era bi. Resolveu investir todas
as fichas.
Seis meses ela ficou morando com
ele. Até que conseguiu uma vaga na casa de umas amigas. Avisou que sairia na
sexta. Ele decidiu se declarar naquela noite mesmo. Comprou umas cervejas, uns
salgadinhos, abriu e ficaram tomando, vendo tv, petiscando. Ele ficou alto, ela
também. Resolveu dizer que a amava, que era louco por ela. Ela disse que era
sapata, que tinha uma namorada, estava apaixonada, era para a casa dela que
iria. Ele a desafiou a fazer amor e não sentir nada. Ela aceitou. “Vou fazer
isso porque tenho muita gratidão por ti”, falou já tirando a roupa.
Foi a noite mais linda da vida dele.
Na manhã seguinte, a namorada veio buscá-la. Dois meses depois, ela pediu
contas da livraria porque a namorada foi promovida na empresa e ia ter que
assumir uma gerência em Rondônia.
Pedro comprou aquele livro para ver
se aquela história se parecia mesmo com a sua.

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