A SEXUALIDADE EM PANORAMA
Na semana passada, terminei a
leitura do ótimo livro da historiadora Mary Del Priore, “Histórias Íntimas –
sexualidade e erotismo na história do Brasil” (Editora Planeta, 2011). Como se
propõe no título, a obra passa em revista 500 e poucos anos dos altos e baixos
da nossa sexualidade, indo dos portugueses viciados em índias moças e nuas a
webstrippers pós-modernas com seus corpos transformados em bits.
Claro que o livro não consegue ser
profundo; é, antes, um arrazoado de boas histórias, de fatos e dados do que foi
e é o brasileiro, entre quatro paredes, com alguns arremedos de análises. Mas é
uma obra bem feita.
Certas passagens são, ao mesmo
tempo, instigantes e deliciosas. Para aguçar a sua curiosidade, ao invés de
ficar fazendo análises e digressões, vou transcrever algumas delas, para que
você tenha tesão em ir beber direto na fonte:
“Quanto ao asseio e às regras de
civilidade, contudo, havia muito que aprender. Os moradores da Colônia ainda
estavam muito próximos de comportamentos julgados selvagens na Europa. Lá,
desde a Idade Moderna, já se desaconselhava arrotar e peidar em público.”(p.25)
“Cobrindo totalmente o corpo da
mulher, a Reforma Católica acentuou o pudor, afastando-a do seu próprio corpo.
(...) Os pregadores barrocos preferiam descrevê-lo como a ‘porta do inferno e
entrada do Diabo, pela qual os luxuriosos gulosos de seus mais ardentes e
libidinosos desejos descem ao inferno.’” (p. 32)
“O sexo admitido era restrito
exclusivamente à procriação. Donde a determinação de posições ‘certas’ durante
as relações sexuais. Era proibido evitar filhos, gozando fora do ‘vaso’. Era
obrigatório usar o ‘vaso natural’ e não o traseiro. Era proibido à mulher
colocar-se por cima do homem, contrariando as leis da natureza. Afinal, só os
homens comandavam. Os colocar-se de costas, comparando-se às feras e
animalizando um ato que deveria ser sagrado.” (p. 43)
“Médicos e fisiologistas que se
ocuparam da questão higiênica dos órgãos genitais e da função genética, como o
dr, Jaf, estabeleceram as regras seguintes: ‘Dos vinte aos trinta anos, o homem
casado pode exercer seus direitos duas a quatro vezes por semana deixando um
dia d´intervalo de cada vez. (...) Dos quarenta aos cinquenta, uma vez todos os
quinze dias e menos ainda se não sentir necessidade. A continência é uma
necessidade para a segunda velhice; o sexagenário não deve ir levar ao altar de
Vênus senão raríssimas vezes, porque, n´esta época da vida, o licor seminal
leva muito tempo a reproduzir-se. O septuagenário deveria abster-se do coito: o
enorme desperdício de fluido nervoso daí resultante mergulha-o num esgotamento
sempre prejudicial à sua constituição.” (p. 119)
“Mas as mulheres já tinham suas defensoras.
A escritora Ercília Nogueira Cobra foi uma delas. Escrevendo contra a
submissão na qual foram sempre
colocadas, reagia: ‘Os homens, no afã de conseguirem um meio prático de dominar
as mulheres, colocaram-lhe a honra entre as pernas, perto do ânus, num lugar
que, bem lavado, não digo que não seja limpo e até delicioso para certos
misteres, mas que nunca poderá ser sede de uma consciência. Nunca!! Seria
absurdo! Seria ridículo, se não fosse perverso. A mulher não pensa com a
vagina, nem com o útero.’” (p. 151)
“O sexo, de reprimido e
disciplinado, depois instrumento de emancipação e igualdade nos anos 70 e 80,
passou a um poderoso aliado do consumo e do hedonismo. Sua banalização seria
uma maneira de distrair a sociedade de seus verdadeiros problemas?” (p. 236)
Há muitas outras passagens,
igualmente boas, que valem o livro. Fica o convite para você procurar, sozinho,
o prazer dele.
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