ABSORVENTE COM ABAS
“Mulher é bicho esquisito/Todo mês
sangra/Um sexto sentido maior que a razão...”, cantava Rita Lee em “Cor de Rosa
Choque”, música que virou símbolo do universo feminino, ao ser elevada a tema
do programa “TV Mulher”, produzido pela Rede Globo, entre os anos de 1980 e
1986. Era um programa matutino, feito e apresentado por mulheres, uma mistura
de revista eletrônica com programa de entrevista, consultório sentimental e
receituário de tudo. A ideia era desvendar o universo feminino, do trabalho à
forma de se vestir, do comportamento na cama ao entendimento dos desejos, da
saúde ao lazer, tudo sempre de mulher para mulher. Claro que não conseguiu. Nem
Édipo, que decifrou o Enigma da Esfinge, conseguiria.
Principalmente Édipo não
conseguiria tal feito. Porque, simplesmente, mulheres são indecifráveis. E,
para os homens, muito mais ainda. A simples compra de um absorvente vai mostrar
a você, ser masculino, como o universo daquela pessoa que você conhece, gosta
ou ama, lhe é desconhecido.
Imagine a cena. Imagine-se na cena.
Você, pai, irmão, amigo, namorado, noivo, marido ou parceiro casual. Seja lá
qual for o seu papel identitário, dá no mesmo. Você chega na farmácia para
comprar um absorvente, a mando dela. Primeiro desafio: encontrar a prateleira
dos absorventes. Você dará umas duas voltas na loja, com ar perscrutador, e, com toda a paciência e pertinácia, não
encontrará. E vai direto perguntar à funcionária (não pergunte ao atendente
macho, ele não saberá lhe dizer).
Ela vai levá-lo ao mundo
indecifrável dos absorventes, com a severidade de Caronte, o transportador das
almas para o Hades, na mitologia grega. E lá, você vai descobrir que uma
tarefa, que lhe parecia fácil, é uma tarefa um tanto complicada.
A princípio, absorvente não é tudo
igual. Existem os absorventes internos e os externos. Existem os com abas e os
sem abas. Existem os noturnos e os diurnos. Existem os mais grossos e os
ultrafinos. Existem os curtos e os mais longos. Cada um desses tem uma função,
uma preferência e uma consequência na mulher. E existem as marcas, os tamanhos
dos pacotes, a cor dos pacotes, a quantidade de absorventes em cada pacote...
Depois de mexer e remexer nas
marcas, ler alguns rótulos (que estarão em mandarim, certamente), puxar pela
memória para lembrar a marca que a pessoa-mulher-esfinge recomendou, você
buscará a ajuda da atendente. Ela virá até você, fará algumas perguntas,
bastante específicas, e lhe indicará, por fim, aquele que mais sai. Você levará
um absorvente com abas, que foi a única informação de que se lembrou, de tudo o
que lhe foi recomendado.
Enfim, é a vida. O eterno
desconhecimento do universo oposto, que tanto nos atrai quanto nos parece
impenetrável. Mulheres também não entendem muito de carro, nem de cervejas, nem
de futebol e seus campeonatos, nem do comportamento do homem no eterno
enfrentamento da questão sexo-amor. A diferença é que elas estão se esforçando;
estão se esforçando...
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