domingo, 7 de fevereiro de 2016

Crônica:

ABSORVENTE COM ABAS

“Mulher é bicho esquisito/Todo mês sangra/Um sexto sentido maior que a razão...”, cantava Rita Lee em “Cor de Rosa Choque”, música que virou símbolo do universo feminino, ao ser elevada a tema do programa “TV Mulher”, produzido pela Rede Globo, entre os anos de 1980 e 1986. Era um programa matutino, feito e apresentado por mulheres, uma mistura de revista eletrônica com programa de entrevista, consultório sentimental e receituário de tudo. A ideia era desvendar o universo feminino, do trabalho à forma de se vestir, do comportamento na cama ao entendimento dos desejos, da saúde ao lazer, tudo sempre de mulher para mulher. Claro que não conseguiu. Nem Édipo, que decifrou o Enigma da Esfinge, conseguiria.

Principalmente Édipo não conseguiria tal feito. Porque, simplesmente, mulheres são indecifráveis. E, para os homens, muito mais ainda. A simples compra de um absorvente vai mostrar a você, ser masculino, como o universo daquela pessoa que você conhece, gosta ou ama, lhe é desconhecido.

Imagine a cena. Imagine-se na cena. Você, pai, irmão, amigo, namorado, noivo, marido ou parceiro casual. Seja lá qual for o seu papel identitário, dá no mesmo. Você chega na farmácia para comprar um absorvente, a mando dela. Primeiro desafio: encontrar a prateleira dos absorventes. Você dará umas duas voltas na loja, com ar perscrutador,  e, com toda a paciência e pertinácia, não encontrará. E vai direto perguntar à funcionária (não pergunte ao atendente macho, ele não saberá lhe dizer).

Ela vai levá-lo ao mundo indecifrável dos absorventes, com a severidade de Caronte, o transportador das almas para o Hades, na mitologia grega. E lá, você vai descobrir que uma tarefa, que lhe parecia fácil, é uma tarefa um tanto complicada.

A princípio, absorvente não é tudo igual. Existem os absorventes internos e os externos. Existem os com abas e os sem abas. Existem os noturnos e os diurnos. Existem os mais grossos e os ultrafinos. Existem os curtos e os mais longos. Cada um desses tem uma função, uma preferência e uma consequência na mulher. E existem as marcas, os tamanhos dos pacotes, a cor dos pacotes, a quantidade de absorventes em cada pacote...

Depois de mexer e remexer nas marcas, ler alguns rótulos (que estarão em mandarim, certamente), puxar pela memória para lembrar a marca que a pessoa-mulher-esfinge recomendou, você buscará a ajuda da atendente. Ela virá até você, fará algumas perguntas, bastante específicas, e lhe indicará, por fim, aquele que mais sai. Você levará um absorvente com abas, que foi a única informação de que se lembrou, de tudo o que lhe foi recomendado.

Enfim, é a vida. O eterno desconhecimento do universo oposto, que tanto nos atrai quanto nos parece impenetrável. Mulheres também não entendem muito de carro, nem de cervejas, nem de futebol e seus campeonatos, nem do comportamento do homem no eterno enfrentamento da questão sexo-amor. A diferença é que elas estão se esforçando; estão se esforçando...



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