LEITURA, LEITURAS, QUALQUER LEITURA.
Não sou sectário nem faço patrulhamentos quando se trata de leitura. Ler
é saudável em qualquer situação. Ler é bom, qualquer que seja a leitura. E,
além do mais, leitura é hábito – e hábito só se cria e, mais que isso, só se
enraíza (fazendo jus à sua etimologia) com as coisas de que se gosta. Para ser
mais claro: ninguém cria o hábito da leitura lendo aquilo que não dá prazer;
isso é fato.
Nunca me esqueço de que, uns sete anos atrás, estava com minha filha
conversando no carro quando ela disparou essa: “Papai, eu odeio os livros
paradidáticos”. Eu fiquei intrigado, um verbo tão forte na boca de uma criança
não podia ser gratuito. Aí, perguntei em seguida: “Mas por que você odeia,
filha?” E ela: “Porque é obrigado!”. É isso: leitura obrigatória não faz bem,
fica vista como punição, imposição e acaba sendo chata, insossa, sem sentido
além daquele de preencher a ficha de compreensão que, via de regra, vem ao fim
do livro paradidático – e que, muitas e muitas vezes, um aluno só responde
(invariavelmente, o que gostou do livro) e repassa aos outros.
O escritor Rubem Alves tem um texto muito belo, poético e esclarecedor
dessa relação sadia que devemos ter com a leitura. O texto é “O prazer da leitura”,
que você pode ler em http://www.rubemalves.com.br/oprazerdaleitura.htm.
Entre muitas outras coisas sábias, Alves defende que a leitura deve ser concebida
como uma experiência contínua do ser humano, que o acompanhará desde o berço,
passando por todas as fases da vida...Para ele, o professor deve ter a função
de ‘seduzir’ os seus alunos para a ação de ler por prazer e deveria haver nas
escolas ‘concertos de leitura’, em que a leitura pudesse ser feita da melhor
maneira para resguardar o seu sentido de encantamento...
E, para criar o hábito da leitura, vale ler tudo: gibis, contos de fada,
histórias sangrentas, livros de cunho religioso, revistas de fofoca, romances
água com açúcar, livros clássicos, jornais, revistas, folhetos de propaganda,
bulas de remédio, cartas de amor, livros didáticos, livros paradidáticos. Claro
que cada leitura deve se adaptar aos valores de cada leitor e o próprio leitor,
com o tempo e a maturidade, vai depurando o que melhor lhe parece. Não existe
leitura ruim; existem leitores ruins...
O desafio dos ‘condutores de leitura’, que em geral são os professores de
língua portuguesa, literatura, redação e etc, será negociar as leituras (nem só
os clássicos nem só os livros comerciais, por exemplo) e tentar fazer de cada
texto a ser lido um momento de agradável descoberta. Criar novas estratégias
para a exploração dos livros, deixar que os próprios alunos descubram formas
para apresentar a compreensão daqueles textos (uma peça de teatro, um vídeo, um
jornal, uma paráfrase, uma música, uma apresentação padrão ou até um bate-papo
informal). Como diz o Rubem Alves, mais importante do que a compreensão do texto
é o prazer que aquele texto pode trazer a quem o lê – o que ele carinhosamente
chama de ‘leitura vagabunda’...
Quando a leitura se tornar um hábito saudável, como tudo na vida, o
leitor vai sentir um bem danado...

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