segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Redação:

SIM, OS JOVENS ESCREVEM


Vez por outra, me deparo com uma das seguintes frases, ditas ou escritas, em algum canto, para justificar tantos “erros” de Português e tantos problemas de redação que vemos, indistintamente: a) Os jovens de hoje não sabem escrever; b) Os jovens de hoje não escrevem mais; c) Os jovens de hoje não querem escrever mais nada; d) Os jovens de hoje não gostam de escrever; e) Na minha época, a gente fazia muito mais redação. Há outras, variantes, mas que seguem no mesmo tom. Nada mais falso que isso. É claro que os jovens de hoje escrevem. E, se duvidarmos, escrevem muito mais do que os jovens do passado.

Basta ver toda essa profusão de redes sociais – Facebook, Twitter e assemelhados, de blogs, de salas de bate-papo em diversos temas e formatos, cuja base de comunicação ainda é a palavra escrita. E também  a quantidade de redações que se fazem na escola – ah, sim, não esqueçamos que os jovens têm aulas de redação na escola. Então, essa meninada escreve muito. E escreve todo dia.

Então, o que é que há? Por que é que há tantos problemas com a apresentação que essa juventude faz da língua?

Na minha concepção, existem basicamente dois problemas. Em primeiro lugar, há uma dificuldade nesses meninos e meninas em se ater aos “registros” da língua; em entender que, assim como o guarda-roupas, a língua também exige, para cada ocasião, certa “vestimenta”. Haverá ocasiões em que ela será mais “relaxada”. Outras em que será mais “rígida”, entendendo essa rigidez como a aproximação com a norma culta, que é aquele conjunto de regras que se aprendem naquele livro chamado gramática – alguém se lembra dele? Trocando em miúdos: não se pode escrever um discurso de formatura, nem uma carta para o prefeito, nem um currículo, com a mesma “liberdade” linguística com que se posta um texto no Facebook. São registros distintos e os jovens precisam entender isso. E, entendendo isso, precisam atribuir o real valor às regras gramaticais, para aquelas comunicações em que o apego a elas é a base.

Em segundo lugar, há uma dificuldade na juventude em compreender o lugar dos gêneros textuais. Gêneros, relembrando, são aqueles conjuntos de textos que têm características semelhantes, que os definem. Por exemplo: toda bula de remédio é escrita da mesma forma, porque “bula de remédio” é um gênero de texto. Da mesma forma, todo e-mail tem iguais características. Da mesmíssima forma, toda “redação” para o Enem terá características semelhantes. Então, quando se diz que os jovens não escrevem, na imensa maioria dos casos está-se referindo ao fato de que eles não escrevem gêneros “escolares”, basicamente aqueles pedidos nos exames tipo Enem e nos concursos. Assim como devem dominar os registros, os jovens também devem dominar os gêneros. E cabe aos professores de redação treinar com eles o gênero “redação”. Mas não só ele. Até porque, depois que passar o Enem, dificilmente eles utilizarão esse texto tipo “redação” para outra coisa...

Então, ao invés de ficarmos vociferando que os jovens “não escrevem”, devemos é estimulá-los a escrever nos diversos gêneros, com os mais distintos registros. E aí teremos jovens com competência para enfrentar qualquer tipo de redação.


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