segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resenha:

UM LIVRO, 25 ANOS DEPOIS

Quando este livro foi lançado, eu estava começando o ensino médio. E, obviamente, ele não me interessava e eu não tinha acesso a ele. Nem sabia da sua existência e a ditadura, para mim, era um tópico do livro de história do Brasil (sim, porque no de Educação Moral e Cívica, que tínhamos no primário, não se falava disso).

Quando ele fez 10 anos, eu já estava no mestrado, morando no Rio, mas também não o encontrei. Falava-se, vagamente, do seu conteúdo pela Escola de Comunicação (ECO), na UFRJ, e de como seu autor, o festejado jornalista Zuenir Ventura, tinha sido feliz em escrevê-lo. Mas ainda assim, não tive contato com ele.

Quando ele fez 20 anos, eu estava em Araraquara, no doutorado. Não me lembro de ter visto nenhuma notinha. Também não o procurei pelas poucas livrarias da cidade. Nem dei com ele nas feiras de livro. Nem em Sampa, aonde fui algumas vezes. No doutorado inteiro, não se falou dele.

E agora, nas suas bodas de ouro, eis que ele me cai nas mãos. Numa banca de livros em promoção na livraria Leitura, em São Luís, entre obras de autoajuda, outras de capa dura, alguns best sellers já fora de época, estava uma pilhinha de “1968 – o ano que não terminou”. A capa informava: “Edição revisada”. E o nome do autor vinha em letras garrafais, em vermelho, bem maiores que o título, pois já se trata de uma celebridade literária.

Fui ler. E, do começo ao fim, constatei: é um livro, de fato, lindo, digno de todas as honras que lhe prestam e de chegar aos 25 anos com vitalidade.

É uma prosa envolvente, uma pesquisa bastante ampla e um olhar arguto e sensível, de ótimo observador, bom e paciente ouvinte e leitor de documentos, que passeia pelo pior ano dos 21 em que a ditadura militar vicejou em nossas terras. O ano da instituição do AI-5.

Zuenir amarra histórias, cria tramas, descortina inconfidências, desvela documentos de gavetas militares, deixa falar as vítimas e os algozes. Mas não faz concessões, não lista sentimentalismos, não toma partido apaixonadamente. Ele, um também (sobre)vivente dos anos de chumbo, põe a seu serviço a objetividade do velho repórter para nos contar uma história pungente.

Não consegui parar de ler. Em alguns trechos, me emocionei fortemente, tal o poder da narrativa. É uma narrativa forte, que faz jus ao conteúdo de que trata.

Não lamento não ter lido antes. Penso que todo livro, misteriosamente, encontra o leitor na hora em que este mais precisa dele.

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