SARAMAGO
Existem dois tipos de biografias: as boas e as ruins. As
primeiras são aquelas bem escritas, narrativamente arquitetadas, em que nada
falta – mesmo que o personagem seja desinteressante, ou por quem você não tenha
a menor simpatia; essas mostram que toda vida, se bem contada, vale a pena ser
conhecida. O melhor exemplo disso, para mim, é a biografia “O Mago”, publicada
em 2008, pela editora Planeta. Em 630 páginas absolutamente bem feitas, o já
consagrado Fernando Morais (autor de obras-primas como “A Ilha”, “Olga”,
“Chatô, O Rei do Brasil” e “Corações Sujos”) descortina a vida de Paulo Coelho,
uma pessoa que me era estranha, afetivamente. E continuou. Mas a narrativa é
linda, digna do esforço desse grande jornalista-biógrafo.
O segundo conjunto de biografias é o das ruins. Nesse
caso, a lógica se inverte: um personagem que lhe é afeito, por conhecimento
real, contato cultural ou midiático, é retratado de maneira falha. É o caso de
“Saramago”, biografia escrita por João Marques Lopes, publicada pela editora
Leya, em 2010. Em 246 páginas de um texto que mistura historiografia com
análise conjuntural e ensaio literário, o autor apresenta a grandiosidade da
vida e da obra de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a
receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. O texto não empolga. Mas a vida
deste português, self made man, sim.
Saramago é um autor singular por tudo o que o cerca. A
superação de deixar uma vida pobre, uma atividade técnica (formou-se e assumiu,
por muitos anos, a profissão de mecânico-serralheiro) para se dedicar à
literatura. A firmeza das ideias que, por toda a vida, defendeu – entre elas, a
crença no comunismo como forma ideal de organização político-social. A
paciência e pertinácia de esperar fazer sucesso apenas aos 60 anos, quando
publica “Levantado do Chão”, obra antes recusada por duas editoras, vivendo
antes disso de traduções, orbitando em torno do sucesso literário. A
inteligência de inventar um estilo próprio de contar suas histórias, com um
narrador múltiplo, que está, em carne e osso, dialogando com o leitor,
apelidado de “estilo saramaguiano”.
Ao lado de nomes como Machado de Assis (“Memórias
Póstumas de Brás Cubas”), Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”), Marcel
Proust (“Em Busca do Tempo Perdido”), dentre outros poucos, Saramago inventa
uma nova forma de narrativa, uma forma que, entre outras características,
desvirtua a pontuação, desconstrói o modelo ortodoxo de entradas de falas de
personagens, apresenta parágrafos imensos (às vezes, duas, três páginas de um
só parágrafo!), deixa a voz do narrador à mostra, quase sempre, marca uma prosa
bem próxima da oralidade, elabora refinadas metáforas para trazer à tona do
romance suas idiossincrasias.
Enfim, este é José Saramago. Um autor que eu conheci por
absoluta causalidade, por cuja prosa me encantei, e que lhes apresento. “Ensaio
sobre a Cegueira”, “O Homem Duplicado”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A
Caverna”, “História do Cerco de Lisboa”, “Todos os Nomes”, “A Viagem do
Elefante”, “Caim” são todas obras-primas, de um autor hermético inicialmente,
cristalino quando se lhe absorve a forma personalíssima de se expressar, de
ideias e narrativas cativantes.
Experimente ler qualquer umas dessas obras arroladas no
parágrafo anterior. Garanto que não perderá o seu tempo e ganhará uma amizade
literária duradoura. E deixe a biografia para ler quando já gostar do autor,
quando uma vida genial vale por um texto mediano.

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