RENARCISOS
Uma vez estava
vendo TV de tarde, não sei bem agora por que razão, mas estava em casa numa
tarde qualquer, quando liguei a televisão e, zapeando, dei com o palhaço Bozo
num desses programas vespertinos que escarnam a vida alheia, com especial
atenção para ex-celebridades. O Bozo, sentado num sofá, contava a sua vida, os
seus dias de fama e fortuna, as suas desventuras, a sua queda, a sua ruína e a
sua busca pela volta por cima. Foi estranho, para mim, que cresci vendo aquela
figura fulgurar no écran nas manhãs do SBT, vê-lo assim, daquele jeito,
fragilizado, penosamente expondo os intestinos da sua vida de astro da TV. No
fim, o baque final: o palhaço, nas suas considerações finais, disse algo como
“queria dizer à dona Maria que aquele aluguel que eu tou devendo eu vou
acertar.” Não sei se foi um gracejo. Desconfiei de que não era, o que aumentou
a minha tristeza.
O Bozo é apenas um
pequeno exemplo do que a gente vê todos os dias, pela mídia. Há uma verdadeira
colmeia de ex-celebridades, subcelebridades e agora anônimos, que disputam a
tapa (às vezes, literalmente) a atenção da audiência. Aí eles chegam, quase do
nada. Aí eles ficam famosíssimos de uma hora para outra. Aí, também de uma hora
para outra, eles somem – ou são, quase sempre, substituídos. É o liquidificador
quadridentado da mídia transformando-os em pasta.
É um processo
rápido. Uns somem por completo; outros ganham, algumas vezes, uma sobrevida –
como ocorre com alguns ex-bbbs, talvez os exemplos mais práticos disso. Um dia
li na Folha de São Paulo que o percurso de um ex-bbb é mais ou menos esse: a)
nos primeiros dias que sai da “casa”, ele/ela cobra para aparecer em festas e
eventos (o que se chama de “presença vip”); b) à proporção que o tempo vai
passando, o cachê vai diminuindo e ele/ela vai se conformando à sua
invisibilidade; c) quando a sua imagem perdeu a força totalmente, ele/ela
começa a se oferecer para ir aos eventos, ligar insistentemente para os
produtores de festas, às vezes até a pagar para comparecer, quando então a
ordem se inverte – o que ele ganhou nas primeiras, “investe” agora, por mais
uns dias de visibilidade. Deve ser um processo doloroso esse, pois, via de
regra, traz também uma redução de ganhos e, por conseguinte, de padrão de vida.
Quem não se lembra do caso da Narjara Turetta, que foi uma atriz famosa nos anos
1970 e, uma década depois, vendia água de coco? Meses atrás ela tinha voltado à
telinha novelesca global, em papel secundaríssimo, pelas mãos do autor Walcyr
Carrasco. Uma sobrevida.
(Agora a profusão
de câmeras móveis gerou uma subcategoria das subcelebridades. Aquelas que
ninguém sabe quem é nem lembra o nome, e que vivem por uma semana nas redes
sociais, às vezes ganhando status de espaço na TV. A última foi a “moça” que
transou e conseguiu filmar o Justin Bieber dormindo. Como é mesmo o nome dela???)
É um
“renarcisamento”. Como se sabe, Narciso se alimentava da própria imagem, ao
ponto de morrer autoencantado. É uma metáfora mitológica, uma fábula para
nossos dias. O professor Muniz Sodré tem um livro sobre a TV convenientemente
chamado “A Máquina de Narciso”. Uma máquina cujas engrenagens giram muito
rápido, que se alimenta de rostos, corpos (muitas vezes das suas partes mais
protuberantes, macias e pudendas), cujo combustível são, via de regra, a
juventude e a singularidade com um pouquinho de escândalo, os dois ao mesmo
tempo.
Vai ser sempre
assim. Já disse Andy Warhol que todo
mundo, no futuro (agora!), iria ter quinze minutos de fama. Ele só não disse é
que o custo seria alto.
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