AGENDAS
Ela se olhava no espelho. Um espelho grande, dava para ela
se ver de corpo inteiro, nua. Passou a mão pelos seios, deslizou-a até a bunda
e falou para a outra no espelho: “homem gosta é de carne”. Dizia isso porque
não tinha um rostinho assim perfeitinho como ela via nas revistas que falavam
do mundo da TV, das modelos, das atrizes novinhas e famosas. Mas tinha boa
altura, tinha seios médios, tinha bumbum grande e empinado, enfim tinha carne.
E ele gostava era da carne dela, o seu rostinho ele até dispensava.
Duas horas. Ela já está esperando
por ele no quarto combinado. Em meia hora ele vai chegar, vai querer
encontra-la nua debaixo do lençol, ele não suporta a ideia de ter que despi-la,
ela já se acostumou com a sua falta de sensibilidade para esses
detalhes-que-só-as-mulheres-frescas-exigem, como ele já repetiu trezentas
vezes. Ela se perfuma, põe a calcinha sobre o criado-mudo e espera por ele,
deitada de bruços.
Três horas. O quarto já está a
meia-luz. Ele chegou e foi direto pro banheiro. Jogou o cigarro no vaso,
lavou-se. Agora está nu sobre ela. Daqui a pouco ela vai arrancar-lhe um uivo
lancinante, vai fazer-lhe expelir todos os líquidos, vai deixa-lo desacordado.
Vai banhar-se e ir embora sem fazer barulho, até que ele acorde por si e volte
ao trabalho, no fim do dia.
“Ele gosta é de carne, não de
carinha de boneca”. É o que a livra de uma vida mais dura.

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