O ÚLTIMO LIVRO DE SARAMAGO
O último livro de José Saramago
termina – ou não termina – sem terminar. Chama-se “Alabardas, Alabardas” e seu
último trecho é este: “, Para lhe falar francamente, tudo me parece demasiado,
eu aqui sentado, eu a procurar documentos no arquivo, eu a falar com o
administrador-delegado da empresa, eu um simples chefe de faturação menor, sem
ofício nem benefício, Ofício, tem, não se queixe, Nada que outra pessoa não
pudesse fazer”. O raciocínio, ao que parece, ficou suspenso, sem ponto final,
sem vírgula, sem ponto e vírgula, sem ponto continuando. Nada. A impressão que
dá é que o autor se levantou para tomar um café, para atender à porta, para
fazer alguma tarefa doméstica ou necessidade fisiológica e não voltou mais.
Mas Saramago não voltou mais porque
não pôde. A doença venceu a batalha e o levou, em 2010. Levou o
autor e deixou o livro pela metade, sem ponto final. O que se sabe dele está
nas suas anotações, colhidas do seu computador pessoal, espalhadas em notas
esparsas e datadas, que ele ia deixando, emendando fatos, ideias e ideais,
amarrando tudo numa prosa, para quem a conhece, inconfundível. Como o final,
que ele já deixara pronto: “O livro terminará com um sonoro ‘Vá à merda’,
proferido por ela [Felícia]. Um remate exemplar”, nota de 16 de novembro de
2009. Essas e outras observações estão colhidas no texto-ensaio de Fernando
Gómez Aguilera que, junto com mais dois, encerram o livro, tentando lhe dar
alguma organicidade com o resto da produção saramaguiana.
Mas nem precisava. Para quem
conhece a obra de José Saramago, o livro, mesmo pela metade, mesmo inconcluso,
mesmo suspenso, mesmo sem ponto final, traz em si o extrato do que ele insistia
em narrar, quase como um credo religioso. Nele está, como
personagem-foco-protagonista-herói invertido, o homem atomizado, o funcionário
(público ou privado) subalterno, esmagado por sistemas industriais, econômicos
ou financeiros impiedosos. Lá está a crítica social, contundente, diluída em
diálogos, narrativas ou conceitos abstratos embrenhados em análises ou
situações – como o fato de o personagem central, Artur Paz Semedo, um burocrata
subalterno das indústrias Belona S/A, fazedora de armas bélicas de pequeno e
médio portes, ser submisso e bajulatório, e ter como único desejo tornar-se
superior na hierarquia da organização, e nem tão superior assim... Lá estão os
parágrafos longos, as entradas dialogais sem distinção, as ideações do
narrador-onipotente-onipresente-onisciente, o narrador total. Lá está o
contraponto para um protagonista alienado, a sua esposa(?), Felícia, uma
ativista-pacifista radical, que o deixa por não concordar nem com seu emprego
nem com sua subserviência. Lá está um Saramago preocupado com a ética, com o
senso de humanidade que o mundo tem perdido, cada vez mais.
O último romance de Saramago é mais
uma profissão de fé em tudo o que ele acreditava – e que levou milhares de
pessoas a acreditar também. Foi-se o homem e ficou a obra; (in)conclusa.
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