sábado, 30 de janeiro de 2016

UM CONTO NOVO

ABRAÃO
- Não tem erro. É só ficar aqui e esperar a cambada de engravatados passar. 

Perto de meio-dia, a marquise ficava cheia de maltrapilhos, espalhados por várias partes, mas todos no caminho por onde passariam os empregados e empregadas dos escritórios perto da Praça Floriano Peixoto, rumo aos restaurantes. Advogados, estilistas, financistas, burocratas, jornalistas, administradores, gerentes, supervisores, consultores, pequenos empresários. A classe média baixa e média média que ia comer com tickets-alimentação. E da qual a mendigada dependia para também pegar o rango. 

Alguns ficavam de mãos estendidas, outros seguravam cuias, sacos de coar café ou qualquer outra coisa que evitasse a proximidade da mão dos doadores com a deles. Muitos tinham nojo daquelas mãos sujas, algumas com feridas. Tinha um que segurava uma raquete de tênis e ficava fazendo pular as moedinhas, produzindo um barulho – achava que assim atraía mais clientes, porque era engraçado e ficava bem longe a possibilidade de qualquer toque.

Quem pôs nele o nome de Abraão foi um moleque de uns 16 anos. Disse que ele parecia, com aquela barba branca e densa, o profeta que queria sacrificar o filho, que ele viu no livrinho do catecismo. “Abraão, o pai do mundo”, disse o moleque, meio noiado, sentado depois do almoço, sob a marquise.  
E ficou. Até os clientes o chamavam de Abraão. “Pega uma moedinha, Abraão”. “Ei, Abraão, trouxe um pedaço de bolo pra ti, quer?” “Abraão, dá uma força aqui pra levar esta caixa até meu carro que eu te dou um café...”. 

 Dois anos ali naquela zona, já era conhecido da mendigada, dos caras dos escritórios, dos policiais que patrulhavam a área. Chegou ainda sem barba, só um troço ralinho na cara. Mas já era velho quando estendeu a mão para receber a primeira moedinha. 

 Não bebia, não roubava, nem usava droga. Isso reforçava nos outros a sua imagem de personagem da Bíblia. “Eu tô aqui porque não tenho casa, não tenho dinheiro, não tenho família, não tenho parentes nem aderentes. Não caí nessa vida porque queria fazer merda sem ninguém me encher o saco, como vocês”, gostava de dizer pra molecada que ficava fumando crack. 

 As assistentes sociais já quiseram levá-lo pros abrigos da prefeitura, mas ele nunca aceitou. “Nos abrigos, eles maltratam a gente. Todo mundo sabe. Até porrada a gente leva, humilhação e tudo. Comida péssima lá. Pelo menos, aqui não tem nada disso. Todo mundo me respeita.” 

 E ia nisso. De manhã, tomar café nas banquinhas, com o que sobrava dos pratos ou contando que alguém daria um troco. Meio-dia, faturar os trocados da turma dos escritórios. De noite, esperar o sopão das igrejas. Entre as refeições, ver a vida passar, fazer um bico e outro, bater perna, ver o movimento. 

 Um dia, um dos caras de gravata trouxe uma quentinha do restaurante pra ele, mas ele não estava lá. “Cadê o velhote barbudo, o Abraão?” “Hoje não apareceu”, respondeu o moleque, aquele de 16 anos. “Tá doente, morreu?”, insistiu o cara de gravata. “Sumiu do mapa, desde sexta. Evaporou”. “Ah, então toma essa quentinha, quer?” “Na hora, meu patrão”. “Como é o seu nome, garoto?” “Eu sou o Isaque”, respondeu, mentindo e lembrando do catecismo. 

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