segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Crônica:

OS JOVENS NÃO DEVERIAM TER MEDO



Quando eu era jovem, eu era muito medroso. Tinha medo de tudo: da polícia, de passar necessidade, de não conseguir sucesso com o curso que eu fazia (aliás, muito mal visto, ainda hoje), de não conseguir comprar uma casa, ter um carro, ter um telefone (sim, na época nem existiam celular, computador, internet), de não conseguir dar à minha filha um bom futuro.

Futuro? Sim, do que eu tinha mais medo era do futuro, do que, efetivamente, ele poderia (não) me trazer. Eu escrevia poemas e crônicas sobre esse medo, que hoje, lendo-os, eu posso sentir toda a dimensão de uma alma atormentada, amedrontada.

Mas eu não sou o melhor exemplo de jovem, não. Para mim, o melhor exemplo de jovem é aquele menino ou aquela menina que traz a coragem estampada nas pupilas, no punho cerrado, no cabelo revolto das batalhas (todas, efetivas ou simbólicas) regadas a adrenalina.

Os jovens nunca deveriam ter medo. Deveriam deixar seus medos guardados numa gaveta de criado-mudo, para só ser aberta na fase adulta – ou mais para frente, na velhice (a tal da melhor idade).

O futuro é sombrio? A violência grassa no mundo? A vida está sem perspectiva? E daí? Nada disso deveria afetar quem tem menos de trinta anos. Até os trinta anos, deveria ser a fase do fazer (-se) e desfazer (-se), experimentalmente. Deveria ser a fase das derrotas edificantes, da irresponsabilidade criativa. De todos os exemplos que já vi ou li sobre grandes personalidades empreendedoras, a característica mais marcante das suas histórias de vida são os sucessivos fracassos. Eles e elas caem e se levantam com uma velocidade espantosa. Pelo menos, até os trinta anos.

Digo isso porque convivo com muitos jovens, todos os dias, por conta do meu ofício. E tenho percebido que, com o passar dos anos, eles têm ficado mais temerosos quanto à vida prática: querem se formar mais cedo, querem fazer cursos que dão retorno financeiro (grande e rápido), acham que, se “perderem” um semestre, já estarão entrando no mercado de trabalho velhos e velhas, querem ter logo o seu carro, o seu apartamento, querem casar cedo e ter filhos para não estragarem seus óvulos. Querem envelhecer antes dos trinta anos.

Deve ser pela nova velocidade que o mundo vem tomando. A pós-modernidade causa isso. Um ano parece uma década. Uma década parece um século. Um século parece outra vida. Bom, numa sociedade em que um pinto de granja está pronto para virar galeto em 45 dias, por conta dos hormônios, não se pode esperar muita paciência, não é?

É uma constatação triste. As crianças já aprendem, na escola, a mexer com o dinheiro. Já têm aulas sobre terrotismo e violência, sobre como entender e se precaver de sequestros, sobre como desconfiar de adultos e  como competir pelo melhor quinhão da vida. Antes dos dez anos, isso tudo.
Plantar e deixar crescer, naturalmente, virou coisa para bichos-grilos. E bichos-grilhos são muito bonitinhos... para (vi)ver a distância...



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