OS JOVENS NÃO DEVERIAM TER MEDO
Quando eu era jovem, eu era muito medroso. Tinha medo de tudo: da polícia, de passar necessidade, de não conseguir sucesso com o curso que eu fazia (aliás, muito mal visto, ainda hoje), de não conseguir comprar uma casa, ter um carro, ter um telefone (sim, na época nem existiam celular, computador, internet), de não conseguir dar à minha filha um bom futuro.
Futuro? Sim, do que eu tinha mais
medo era do futuro, do que, efetivamente, ele poderia (não) me trazer. Eu
escrevia poemas e crônicas sobre esse medo, que hoje, lendo-os, eu posso sentir
toda a dimensão de uma alma atormentada, amedrontada.
Mas eu não sou o melhor exemplo de
jovem, não. Para mim, o melhor exemplo de jovem é aquele menino ou aquela
menina que traz a coragem estampada nas pupilas, no punho cerrado, no cabelo
revolto das batalhas (todas, efetivas ou simbólicas) regadas a adrenalina.
Os jovens nunca deveriam ter medo.
Deveriam deixar seus medos guardados numa gaveta de criado-mudo, para só ser
aberta na fase adulta – ou mais para frente, na velhice (a tal da melhor
idade).
O futuro é sombrio? A violência
grassa no mundo? A vida está sem perspectiva? E daí? Nada disso deveria afetar
quem tem menos de trinta anos. Até os trinta anos, deveria ser a fase do fazer (-se)
e desfazer (-se), experimentalmente. Deveria ser a fase das derrotas
edificantes, da irresponsabilidade criativa. De todos os exemplos que já vi ou
li sobre grandes personalidades empreendedoras, a característica mais marcante
das suas histórias de vida são os sucessivos fracassos. Eles e elas caem e se
levantam com uma velocidade espantosa. Pelo menos, até os trinta anos.
Digo isso porque convivo com muitos
jovens, todos os dias, por conta do meu ofício. E tenho percebido que, com o
passar dos anos, eles têm ficado mais temerosos quanto à vida prática: querem
se formar mais cedo, querem fazer cursos que dão retorno financeiro (grande e
rápido), acham que, se “perderem” um semestre, já estarão entrando no mercado
de trabalho velhos e velhas, querem ter logo o seu carro, o seu apartamento,
querem casar cedo e ter filhos para não estragarem seus óvulos. Querem
envelhecer antes dos trinta anos.
Deve ser pela nova velocidade que o
mundo vem tomando. A pós-modernidade causa isso. Um ano parece uma década. Uma
década parece um século. Um século parece outra vida. Bom, numa sociedade em
que um pinto de granja está pronto para virar galeto em 45 dias, por conta dos
hormônios, não se pode esperar muita paciência, não é?
É uma constatação triste. As
crianças já aprendem, na escola, a mexer com o dinheiro. Já têm aulas sobre
terrotismo e violência, sobre como entender e se precaver de sequestros, sobre
como desconfiar de adultos e como
competir pelo melhor quinhão da vida. Antes dos dez anos, isso tudo.
Plantar e deixar crescer,
naturalmente, virou coisa para bichos-grilos. E bichos-grilhos são muito
bonitinhos... para (vi)ver a distância...

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