domingo, 6 de novembro de 2016

Conto: Memória da Pele

MEMÓRIA DA PELE

Na primeira vez que ficou com uma mulher, depois de tudo aquilo, Antônio quase chorou. Seis meses naquela cama de hospital, dois meses imóvel, dores horríveis no quadril e na perna quebrada. Depois fisioterapia, fisioterapia, fisioterapia...fisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisiote-rapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapia...quilos e quilos de remédios, não tinha mais veia que não tivesse buraco de soro. Banho só tomou depois de três meses, quando puderam tirar o gesso da bacia e ver como ficou. Antes disso, só toalhinha molhada, “não limpa nada, essa porra”, ele dizia ao enfermeiro. Se sentia imundo, com a sensação de estar todo cagado e mijado. Os últimos dois meses já andava de cadeira de rodas, depois de muletas. Enfim, deixou aquele inferno.
Na saída, comprou um cartão telefônico e ligou pra única pessoa que poderia fazer aquilo por ele. “Alô?”. “Sílvia, sou eu. Saí agora do hospital”. “Pois vem pra minha casa já”. “Não sei mais onde é”. “Sabe sim, pega o mesmo ônibus. É a mesma casa”. Ele disse tchau com um sorriso de esperança na cara recém-barbeada.
Sílvia era amiga de muitos anos. De uma vida inteira, na verdade. Cresceram juntos, moravam um de frente pro outro, na vila dos operários daquela fábrica. A empresa construiu as casas pros peões poderem morar perto da firma e meteu todos lá dentro. Casinhas pequenas, feias, todas iguais, mas ninguém pagava nada por elas nem pegava ônibus pra chegar ao serviço. Dava pra sair de casa quando ouviam o apito chamar.
Cresceram juntos e juntos foram descobrindo os prazeres da vida. Foi com Sílvia que Antônio sentiu, pela primeira vez, aos doze anos, os pelos da buceta de uma mulher. Ela tinha quatorze e já apresentava uma penugem preta e mais ou menos espessa. Um dia, ela o chamou no quarto, a mãe tinha ido ao mercado, e disse: “Fecha os olhos, vou te dar um presente”. Ele fechou e ela pegou a mão dele e pôs dentro da calcinha. Antônio sentiu um arrepio, uns espinhos furando de leve a palma da mão, como se estivesse tocando capim. Aí ela pediu: “Aperta o dedinho no meio”. E ele apertou e depois sentiu um líquido pegajoso entre os seus dedos. “Não abre os olhos”. E ele ficou o tempo todo de olhos fechados. Alguma coisa cresceu nele, ficou de pau duro. Ela, então, tirou o seu calção até o joelho e, ele ainda de olhos fechados, passou a mão, de cima a baixo, depois apertou com uma força delicada a cabeça do pau. Ele se arrepiou. Vestiram-se. “Não diz pra ninguém, viu?”, ela ordenou. Ele obedeceu. Queria outras vezes aquilo.
Perderam a virgindade juntos. Aos dezessete anos ele, num piquenique da escola. Lá, depois que todos se recolheram para dormir, saíram escondidos e foram se amar na beira do lago. A toalha que ele trouxe pro passeio foi jogada fora escondido, suja de sangue.
Sílvia não gostava de Antônio, gostava de Márcio, irmão caçula dele. Mas Márcio casou com uma outra vizinha da vila, Jussara, uma negra linda, de seios fartos e pernas firmes. Mais velha que ele. Sílvia ficou muitos anos sem frequentar a casa da família de Antônio por causa disso, só voltou lá no Natal de 1992, quando Márcio já tinha ido para o Acre assumir um concurso da Receita Federal, levando Jussara e dois meninos junto.
Com o tempo, Sílvia e Antônio foram se conformando com a situação de serem amigos-amantes. Não havia regularidade, não havia planejamento, não havia situações criadas para os encontros. Não havia nada. Quando Sílvia queria foder, ligava pra Antônio, ou ia direto na sua casa e pronto. E vice-versa.
Durante a internação, só Sílvia foi ao hospital visitá-lo. Foi três vezes. Na última, enquanto a enfermeira deu uma saidinha, ela fechou a porta e ficou nua. “Olha o que te espera, seu escrotinho. Vê se fica bom logo”. Foi muito rápido, mas o suficiente pra Antônio endurecer o pau. Depois ela foi até a cama e deu nele um beijo fundo, de língua.
Agora ele estava ali, naquela parada, esperando o ônibus que levava à casa dela. Sentia-se fraco, ainda um pouco cambaleante, meio zonzo, pelos muitos dias que passou deitado, sem se movimentar. Mas sentia, sobretudo, um tesão pelos meses sem sexo.
Bateu à porta e Sílvia gritou, lá do quarto. “Entra, filho, a porta está só encostada”. Quando ouviu ranger as dobradiças, ela disse: “Fecha na chave, tira essa roupa de hospital e vem pra cá, meu bem.”
Antônio entrou no quarto e não tinha ninguém na cama. Por trás dele, a voz disse: “Fecha os olhos, como daquela vez, na nossa infância. Ele obedeceu, ficou de olhos fechados e ela pegou a mão dele e levou até a buceta. Estava raspada, os cabelos começando a surgir, espinhando. Antônio sentiu a maciez daquele sexo, meteu de leve o dedo e sentiu um líquido pegajoso. O pau duro já estava nas mãos de Sílvia, que agora se agachava para pô-lo na boca. Ali, de pé, Antônio procurou os cabelos dela, movimentando a cabeça de Sílvia de leve, para frente e para trás, e gemendo baixinho. “Agora eu quero você dentro de mim”, ela disse quando se levantou. E o puxou para a cama. Ele de olhos fechados. Sempre.
Foi quase chorando que Antônio meteu o pau de carne dentro de Sílvia, a princípio de leve, depois estocando com força, mordendo os mamilos dela e fungando entre as tetas, umas tetas grandes, mas já meio flácidas, como convém a uma mulher de quase quarenta anos. Para excitá-lo, ela dizia: “Goza em mim, meu menino, goza em mim”. Antônio também fez Sílvia gozar, como das outras vezes. De todas as outras vezes. O único, aliás, que conseguiu, em toda a vida dela.

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