MEMÓRIA DA
PELE
Na primeira vez que ficou com uma
mulher, depois de tudo aquilo, Antônio quase chorou. Seis meses naquela cama de
hospital, dois meses imóvel, dores horríveis no quadril e na perna quebrada. Depois
fisioterapia, fisioterapia,
fisioterapia...fisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisiote-rapiafisioterapiafisioterapiafisioterapiafisioterapia...quilos
e quilos de remédios, não tinha mais veia que não tivesse buraco de soro. Banho
só tomou depois de três meses, quando puderam tirar o gesso da bacia e ver como
ficou. Antes disso, só toalhinha molhada, “não limpa nada, essa porra”, ele
dizia ao enfermeiro. Se sentia imundo, com a sensação de estar todo cagado e
mijado. Os últimos dois meses já andava de cadeira de rodas, depois de muletas.
Enfim, deixou aquele inferno.
Na saída, comprou um cartão
telefônico e ligou pra única pessoa que poderia fazer aquilo por ele. “Alô?”.
“Sílvia, sou eu. Saí agora do hospital”. “Pois vem pra minha casa já”. “Não sei
mais onde é”. “Sabe sim, pega o mesmo ônibus. É a mesma casa”. Ele disse tchau
com um sorriso de esperança na cara recém-barbeada.
Sílvia era amiga de muitos anos. De
uma vida inteira, na verdade. Cresceram juntos, moravam um de frente pro outro,
na vila dos operários daquela fábrica. A empresa construiu as casas pros peões
poderem morar perto da firma e meteu todos lá dentro. Casinhas pequenas, feias,
todas iguais, mas ninguém pagava nada por elas nem pegava ônibus pra chegar ao
serviço. Dava pra sair de casa quando ouviam o apito chamar.
Cresceram juntos e juntos foram
descobrindo os prazeres da vida. Foi com Sílvia que Antônio sentiu, pela primeira
vez, aos doze anos, os pelos da buceta de uma mulher. Ela tinha quatorze e já
apresentava uma penugem preta e mais ou menos espessa. Um dia, ela o chamou no
quarto, a mãe tinha ido ao mercado, e disse: “Fecha os olhos, vou te dar um
presente”. Ele fechou e ela pegou a mão dele e pôs dentro da calcinha. Antônio
sentiu um arrepio, uns espinhos furando de leve a palma da mão, como se estivesse
tocando capim. Aí ela pediu: “Aperta o dedinho no meio”. E ele apertou e depois
sentiu um líquido pegajoso entre os seus dedos. “Não abre os olhos”. E ele
ficou o tempo todo de olhos fechados. Alguma coisa cresceu nele, ficou de pau
duro. Ela, então, tirou o seu calção até o joelho e, ele ainda de olhos
fechados, passou a mão, de cima a baixo, depois apertou com uma força delicada
a cabeça do pau. Ele se arrepiou. Vestiram-se. “Não diz pra ninguém, viu?”, ela
ordenou. Ele obedeceu. Queria outras vezes aquilo.
Perderam a virgindade juntos. Aos
dezessete anos ele, num piquenique da escola. Lá, depois que todos se
recolheram para dormir, saíram escondidos e foram se amar na beira do lago. A
toalha que ele trouxe pro passeio foi jogada fora escondido, suja de sangue.
Sílvia não gostava de Antônio,
gostava de Márcio, irmão caçula dele. Mas Márcio casou com uma outra vizinha da
vila, Jussara, uma negra linda, de seios fartos e pernas firmes. Mais velha que
ele. Sílvia ficou muitos anos sem frequentar a casa da família de Antônio por
causa disso, só voltou lá no Natal de 1992, quando Márcio já tinha ido para o
Acre assumir um concurso da Receita Federal, levando Jussara e dois meninos
junto.
Com o tempo, Sílvia e Antônio foram
se conformando com a situação de serem amigos-amantes. Não havia regularidade,
não havia planejamento, não havia situações criadas para os encontros. Não
havia nada. Quando Sílvia queria foder, ligava pra Antônio, ou ia direto na sua
casa e pronto. E vice-versa.
Durante a internação, só Sílvia foi
ao hospital visitá-lo. Foi três vezes. Na última, enquanto a enfermeira deu uma
saidinha, ela fechou a porta e ficou nua. “Olha o que te espera, seu
escrotinho. Vê se fica bom logo”. Foi muito rápido, mas o suficiente pra
Antônio endurecer o pau. Depois ela foi até a cama e deu nele um beijo fundo,
de língua.
Agora ele estava ali, naquela
parada, esperando o ônibus que levava à casa dela. Sentia-se fraco, ainda um
pouco cambaleante, meio zonzo, pelos muitos dias que passou deitado, sem se
movimentar. Mas sentia, sobretudo, um tesão pelos meses sem sexo.
Bateu à porta e Sílvia gritou, lá
do quarto. “Entra, filho, a porta está só encostada”. Quando ouviu ranger as
dobradiças, ela disse: “Fecha na chave, tira essa roupa de hospital e vem pra
cá, meu bem.”
Antônio entrou no quarto e não
tinha ninguém na cama. Por trás dele, a voz disse: “Fecha os olhos, como
daquela vez, na nossa infância. Ele obedeceu, ficou de olhos fechados e ela
pegou a mão dele e levou até a buceta. Estava raspada, os cabelos começando a
surgir, espinhando. Antônio sentiu a maciez daquele sexo, meteu de leve o dedo
e sentiu um líquido pegajoso. O pau duro já estava nas mãos de Sílvia, que
agora se agachava para pô-lo na boca. Ali, de pé, Antônio procurou os cabelos
dela, movimentando a cabeça de Sílvia de leve, para frente e para trás, e
gemendo baixinho. “Agora eu quero você dentro de mim”, ela disse quando se
levantou. E o puxou para a cama. Ele de olhos fechados. Sempre.
Foi quase chorando que Antônio
meteu o pau de carne dentro de Sílvia, a princípio de leve, depois estocando
com força, mordendo os mamilos dela e fungando entre as tetas, umas tetas
grandes, mas já meio flácidas, como convém a uma mulher de quase quarenta anos.
Para excitá-lo, ela dizia: “Goza em mim, meu menino, goza em mim”. Antônio
também fez Sílvia gozar, como das outras vezes. De todas as outras vezes. O
único, aliás, que conseguiu, em toda a vida dela.

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