domingo, 23 de outubro de 2016

CONTO: EDUARDO


Não foi assim de repente que Eduardo percebeu Estela, não. Eduardo sempre foi um menino tímido, “na dele”, parece que nunca prestava atenção ao que acontecia ao seu redor – principalmente, “a quem”. Os amigos debochavam: “Esse Dudu parece que vai dar pra dador de cu”. Outras coisas mais eram ditas, sempre levando para o lado da homossexualidade. Dudu se chateava, mas nunca revidava. Um dia alguém lhe disse que, se revidasse, aí mesmo é que a galera nunca ia deixar ele em paz...
Estela, simplesmente, aconteceu. Sem ele perceber, sem se dar conta do que estava acontecendo, sem fazer nenhum esforço para que acontecesse. Eduardo já a conhecia da rua mesmo, porque ela ia sempre na casa da mãe dele, acompanhada da mãe ou de uma tia mocinha. Iam provar roupa, a mãe de Eduardo era costureira e, naquela época, as pessoas ainda faziam muita roupa por encomenda.
Quase sempre, quando Estela chegava na casa dele, ele estava vendo TV ou brincando no terraço, com um carrinho ou um boneco na mão. Nem olhava para ela. Apenas gritava pela mãe, quando elas batiam palmas no portão.
O tempo passou e Eduardo cresceu. Já não era mais o menino que ficava de olho baixo quando as visitas chegavam para provar as roupas na salinha de costura. Mas também não era desinibido. Continuava tímido, apenas não se escondia mais de ninguém.
13 anos já. E viu Estela, que já tinha seus 14, quando a tia (agora casada e com uma menina no colo) foi à casa de Dona Justina pegar uma roupa levada para ajustar. Estela era outra Estela: uma moça morena, olhos claros, um corpo cheio de curvas, acentuadas pelo vestido colado. Foi a primeira vez que Eduardo, realmente, viu Estela.
Enquanto a tia entrou na salinha de costura para pegar e pagar a roupa, Estela ficou na sala da frente, ao lado de Eduardo. Não houve conversa, não havia motivos para nenhuma. Quando elas se foram, ficou na sala um ar imóvel de desejo.
Eduardo a viu outras vezes. Agora notava quando ela passava para a escola, com as amigas. Sabia os horários em que ela ia à igreja, em que ia para o inglês, para o vôlei, em que visitava a avó, na mesma rua, mais abaixo, em que ia para o particular. Eduardo começou a perceber Estela, agora, todos os dias.
E Eduardo sonhava com Estela. Sonhava beijando Estela, acariciando a sua pele morena, apertando o seio de estela contra o seu peito, alisando as coxas de Estela, penetrando Estela. E a cama de Eduardo ficava toda melada, e ele rezava para a sua mãe não entrar no quarto naquele dia e perceber o lençol sujo ou com cheiro de esperma.
Estela-linda. Estela-musa. Estela-toda-gostosa. Estela-tesuda. Estela-que-me-faz-gozar. Estela-estrela-da-minha-vida-inteira... Eduardo agora pensava em Estela o dia todo, principalmente na hora do banho.
Um dia, a tia de Estela foi à casa de Eduardo, sozinha. Foi pegar uma calça Jeans que deixara para fazer a bainha. Eduardo, da sala de TV, ouviu quando a tia disse algo como “fazer cursinho na capital”. E associou a Estela a história, pois nunca mais a tinha visto passar pela rua. Isso já era março.
Nunca Estela soube que Eduardo a percebera naquela ocasião. Nem ele a encontrou mais. Nem outra igual.




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