OS LIVROS SÃO OBJETOS TRANSCENDENTES
Caetano estava certo quando cunhou essa frase no CD Livro Vivo. Caetano é chato, mas tem
razão no que diz no mais das vezes. Os livros são mesmo coisas que de coisas
não têm nada.
Foi Walter Benjamin quem disse que a obra de arte
genuína tem aura. Não se referia aos livros, pois se assim fizesse, teria que
desentortar o “u” e triplicar o “r”, para dizer, certeiro, que os livros têm
alma. É de alma que eles são forjados; de vida, enfim.
Dito isso, passemos às evidências. Livros não ficam
nas estantes todos da mesma forma. O leitor comum não percebe, o leitor incomum
nem imagina, mas eles nas estantes são todos uns insubordinados. Falam mal uns
dos outros, fazem conluios (livros dessa ou daquela corrente se juntam para
continuar a pendenga em que seus autores, outrora, se engalfinharam), mudam de
estante quando lhes convêm, trocam de vizinhos, expulsam os malquistos da sua
companhia... Você, que tem estantes de livros, já reparou que, de vez em
quando, um livro aparece no chão assim, “do nada”? Não tenha dúvida quando isso
acontecer: alguma ele aprontou e os seus desafetos o expurgaram de lá.
Mas livros nas estantes são como uma família. Há os
que mandam no “pedaço”, geralmente os clássicos; há os neófitos, os dos autores
que estão em início de carreira e que não apitam em nada; há os menorzinhos,
pockets, que têm documento mas não têm tamanho e todos os outros os colocam
onde querem; há os técnicos, que parecem estar sempre de terno e gravata e
carregar todo o superego da família; e há outros ainda, inclassificáveis. E, uma
vez postos em família, não gostam de se separar. Esperneiam quando um deles se
vai, ou por doação ou por roubo ou por extravio.
Que os livros são nossos professores é clichê já. Mas
e o que dizer quando eles não querem ensinar? O leitor já viveu aquela
experiência de ler um livro uma, duas, três vezes e não conseguir extrair nada
dele? E aí você fica pondo a culpa no hermetismo do autor. Quando isso
acontecer doravante, conforme-se: absolva o autor; o livro mesmo é que não foi
com a sua cara e lhe fechou as portas daquele assunto... pelo menos, nas suas
páginas.
Livros ficam velhos...e, quanto mais velhos, melhores.
São como o Conselheiro Aires, do último romance do Machado de Assis. Quando
mais velhos, dão melhores conselhos. Livros ficam velhos, mas não envelhecem. Quando
um livro se percebe envelhecido, ele se suicida. Como? Chamando o seu exército
particular de cupins que, benfazejos, dão cabo dele, num rito sumário e
indolor.
Quem convive com os livros aprende, com o tempo, a
decifrar os seus achaques, suas rabugices, suas vicissitudes, seus estados
alterados. Aprende
a reconhecer a família de cada um nas estantes. Aprende a esperar o tempo certo
de apreender o melhor de cada um deles, mesmo que alguma página (ou todas)
amareleça. E aprende, fundamentalmente, a amá-los, a respeitá-los e a cuidar
deles.
Para com o bom leitor, o livro é generoso.

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