O LIVRO
ENCONTRA VOCÊ
Eu sou uma pessoa ansiosa. Daquelas
de ficar perdendo tempo pensando em uma coisa que ainda nem está prestes a
acontecer. Ou de ficar programando uma fala, uma escrita, um argumento para
algo que está no mês que vem. Digo isso pra justificar a minha relação com os
livros, lá no início da minha carreira como “leitor profissional”.
No início, eu achava que tinha que
ler todos os livros que eu adquiria, seja por empréstimo, por aluguel (sim, já
houve um tempo em que se alugavam livros, desconfio de que isso não existe
mais), por doação ou por compra. E aí ficava uma corrida alucinada para dar
conta de todas as leituras, porque os livros, quando a gente começa a adquirir,
não param nunca mais de chegar.
O resultado disso é que lia, às
vezes, três, quatro livros ao mesmo tempo. De áreas diferentes, para as
finalidades mais distintas: da teoria da comunicação às biografias, passando por
redação, literatura, autoajuda, religiosos, técnicos e por aí vai. Como fruto dessa
correria, claro, surgia uma baixa qualidade de leitura – a quantidade não
formava a qualidade.
Demorou um pouco pra eu perceber o
óbvio: quem quer formar uma biblioteca não pode ter a doidice de querer ler
todos os livros. Aprendi essa lição no dia em que pude fazer uma pergunta a
José Mindlin, o maior bibliófilo do Brasil, um homem que juntou, em sua vida de
quase 90 anos, mais de 30 mil livros. Perguntei a ele num seminário no Centro
Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, em 1999: “Doutor Mindlin, o
senhor tem todos os seus livros lidos?”. Ele me olhou com um ar paternal, como
quem ia ensinar uma grande lição, dessas que ficam para a vida toda, e me disse:
“Meu caro, eu não tenho todos os meus livros lidos; mas eu tenho todos
conhecidos.”
Foi o suficiente para eu aprender
que não se deve forçar a leitura de um livro quando não é a hora de se fazer
isso. Foi o necessário para eu admitir que um livro pode ficar anos e anos na
minha estante, sem que necessariamente ele entre para a lista dos “lidos”. A
hora dele chegará. Ou não. E isso, para quem gosta de livros, tem que ser uma
coisa normal.
Um dia desses postei no Facebook
que eu só tinha lido “O Pequeno Príncipe” quando já fazia doutorado. Foi só
quando consegui me interessar por ele, foi só quando achei a oportunidade, foi
só quando o encontro se fez possível. E assim como ele, muitos outros títulos
estão nas minhas estantes, mais ou menos afamados, autores com maior ou menor
“pedigree”. Uma dia, o encontro chegará, um dia eu me interessarei, por
qualquer que seja o motivo, tirarei da estante aquele autor que lá dorme e
promoverei o encontro. Ele me encontrará, muito provavelmente, pois há uma
certa transcendência nessas relações etéreas...
Livros não se acabam; é só ter
cuidado com as traças.

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