quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Crônica:

DIPLOMA QUE TRANSFORMA

Sim, somos no Brasil uma sociedade meritocrática. Por meritocracia, estou chamando aquele sistema  em quem, em “condições normais de temperatura e pressão”, uma  pessoa que tem mais conhecimento, mais estudo, mais certificados que atestem a sua capacidade técnica e qualificação profissional se destaca mais que uma outra  que não os tem – ou que tem em menor quantidade. Isso pode ser comprovado pela exigência quase unânime dos currículos para contratação de novos funcionários, pelas seleções de estagiários, trainees, empregos mesmo, cada vez mais rigorosas, cansativas e exigentes – inglês fluente, informática, “quociente emocional”, desinibição, oratória, autonomia textual e, óbvio, conhecimento da área.

Claro que estou falando da regra. A exceção também existe, mas em menor quantidade. Por exemplo: se você conhece o dono da empresa, ou se namora o executivo da companhia, ou se tem um sobrenome tradicionalíssimo ou se “conhece-alguém-que-conhece-alguém-que-conhece-o-manda-chuva” aí não precisa de currículo, aí você se basta.

Mas não é assim que a sociedade se movimenta. Insisto: quando existe, isso é exceção. Na imensa maioria dos casos, você terá que ralar muito, estudar noites a fio, exaurir-se para ocupar o seu lugar ao sol. Se você teve a sorte de nascer em uma família com recursos, que lhe dá a tranquilidade de poder apenas estudar, seu caminho estará mais facilitado, pois eliminará a faina diária para ter que juntar reais para pagar seus boletos além de estudar nas “horas vagas”. Se você não teve esse “berço”, então se console e se fortaleça, pois a jornada será bem mais hercúlea.

Virou lugar comum se dizer que, no Brasil, quem se capacita ocupa melhores postos no mercado de trabalho. Todos os dias a mídia noticia isso. Ainda bem. Para um país que está em processo de desenvolvimento, isso soa até bastante pedagógico.

E aqui entra o papel da Universidade. Há duas semanas, a Ufma fez as suas cerimônias de colação de grau, na capital e nos campi do interior do estado. Pude acompanhar, em Imperatriz, a cerimônia mais de perto, como dirigente da instituição. É um momento único, para todos. Principalmente para quem está se formando. No momento em que cada jovem sobe ao palco para receber o seu grau de bacharel ou licenciado, uma mágica se efetiva: ele sobe como gerúndio (“graduando”) e desce como particípio (“graduado”). É uma mudança de forma verbal, mas também uma mudança de vida. E, quase sempre, para melhor.

Temos acompanhado, nos sete anos que estamos na Ufma como docente, as verdadeiras revoluções que o curso superior tem feito na vida de muitos desses jovens. Transformação na forma de pensar, de agir, de enxergar o mundo a sua volta. Mudança na forma de trabalhar, de fazer o que muitas vezes já faziam sem o diploma. Melhoria na sua vida material: compra de bens de consumo, viagens, aquisição da casa própria, compra do automóvel (moto, carro). Aumento do seu padrão de felicidade geral. Sem o diploma de graduação, certamente muitos desses jovens estariam em empregos no comércio ou mesmo desempregados, ganhando menos do que ganham ou ganharão depois de formados.

Cito como exemplo um caso de uma aluna de Jornalismo que formou recentemente. Vou chamá-la de Vitória, para ficar no mesmo campo semântico. Pois bem. Quando Vitória entrou no Curso, ela era bem jovem, cheia de sonhos e uma vida um pouco difícil. Vitória começou o curso, mas teve que se afastar porque casou e engravidou. Depois engravidou de novo. Num esforço imenso, ela voltou ao Curso depois de quase dois anos longe. Como gostava da área e tinha talento (dois aspectos fundamentais para definir o padrão de sucesso de um profissional, pois o diploma, por si só, não faz milagre), Vitória retomou os estudos e, esforçada, conseguiu um emprego na área. Depois conseguiu outro. Depois mais outro. Por fim, Vitória se formou no último dia 23 de abril. A família vai bem, ela e o marido trabalham e, de uma condição ruim, passaram para uma vida melhor: já têm casa própria e agora têm carro e outros apetrechos. A renda aumentou, as perspectivas de um futuro promissor também. E muito desse sucesso Vitória deve à sua passagem pela Ufma e a tudo o que a universidade pôde (e ainda vai poder) lhe proporcionar.


Há outros exemplos. Em todos os lugares. Há milhares e milhares de Vitórias espalhadas por este Brasilzão, nas cidades grandes e pequenas, do Oiapoque ao Chuí. Pessoas que têm para contar histórias de transformação de vidas, que tiveram a universidade como lugar de passagem. E essa é, entre outras, a função do conhecimento. O conhecimento não só liberta da opressão, da ignorância. Ele também liberta da pobreza. 

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