50 ANOS DEPOIS
Hoje faz exatos 50 anos que os
militares tomaram o poder no Brasil e impuseram um regime de exceção. Depuseram
o presidente João Goulart, que foi pro exílio no Uruguai, censuraram os meios
de comunicação, exilaram muitos parlamentares, botaram os tanques na rua numa
demonstração de força. E instalaram um novo governo federal, que perdurou até
1985, quando Tancredo Neves foi eleito, indiretamente, e não assumiu. E o resto
a gente já sabe, porque faz parte da nossa história mais recente.
Eu não vi o golpe. Não era nascido.
Só fui sentir o que ele representava a partir de 1979, quando entrei na escola. Fui estudar no
Centro Integrado Presidente Médici, da Rede Sesi, em Bacabal. Lá era uma cidade
muito pequena, uns 50 mil habitantes talvez, a vida era pacata, a gente não
sentia muito os tremores das ruas, o exército perseguindo militantes de
esquerda, as notícias (que notícias??) sobre prisões, torturas, sumiços. Lá a
gente apenas recebia o leite que o governo mandava pra merenda do recreio (e o
macarrão e a charque e o biscoito e o achocolatado), os cadernos com o Hino
Nacional na contracapa, que a gente aprendia a cantar, as aulas de Educação
Moral e Cívica e as paradas de 7 de setembro. Era tudo o que sabíamos do que
acontecia país afora. Televisão não
tinha ainda. E, mesmo que tivesse, era (depois vim a saber) censurada, assim
como toda a mídia (a grande mídia).
Também tínhamos uma carteira do
INPS e, quando precisávamos, íamos nos consultar com ela e fazer tratamento
dentário. Papai tinha um colega no INPS que conseguia as consultas. Não
tínhamos casa financiada, a nossa era própria, mas havia o BNH. Tudo parecia
funcionar bem, as ruas eram sem asfalto e não tinha muita violência. É o que
papai me diz: “Para quem não era metido em política, o governo militar era
bom.”
Mas o problema era a política e a
falta de democracia. Nos 21 anos do regime dos militares, muitas e muitas
pessoas perderam a vida – umas ainda hoje não encontradas, como o célebre
desaparecimento do deputado federal Rubens Paiva, de corpo insepulto. E não se
podia falar abertamente contra o governo. Se falasse, o pau comia. Se desse
bobeira, sumia. Muitos e muitos jovens se jogaram na odisseia de afrontar o
governo e por isso pereceram – nos centros urbanos, nas matas do Pará ou na
Amazônia. Muitos professores universitários, estudantes e artistas tiveram que deixar o país, à força
e às pressas. Jornalistas não publicavam o que escreviam. A falta da democracia
é um sufocamento muito insano para uma sociedade. E, por ela, reagiu-se contra
os militares até se conseguir uma distensão, um enfraquecimento gradual e depois
uma derrocada do regime.
Hoje percebo que o golpe foi ruim. Na
minha época de criança, ele era indiferente, eu só sabia da parte que os livros
de História do Brasil e Educação Moral e Cívica traziam. O Brasil cresceu,
nessa época? Sim. Mas a um custo democrático muito muito vergonhoso. Hoje não
temos mais cenário para outro golpe, apesar de que, vez em quando, se ensaiam
recrudescimentos...
Mas até nisso a democracia é boa. Ela
permite que saudosistas e atrasistas esbravejem – nas praças, nas ágoras
pós-modernas (TV, Rádio, Jornal, Revista, Internet), nas tribunas
parlamentares. Falam para ouvidos mocos – ao menos, é o que se espera.

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