segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Crônica:


50 ANOS DEPOIS


Hoje faz exatos 50 anos que os militares tomaram o poder no Brasil e impuseram um regime de exceção. Depuseram o presidente João Goulart, que foi pro exílio no Uruguai, censuraram os meios de comunicação, exilaram muitos parlamentares, botaram os tanques na rua numa demonstração de força. E instalaram um novo governo federal, que perdurou até 1985, quando Tancredo Neves foi eleito, indiretamente, e não assumiu. E o resto a gente já sabe, porque faz parte da nossa história mais recente.

Eu não vi o golpe. Não era nascido. Só fui sentir o que ele representava a partir de  1979, quando entrei na escola. Fui estudar no Centro Integrado Presidente Médici, da Rede Sesi, em Bacabal. Lá era uma cidade muito pequena, uns 50 mil habitantes talvez, a vida era pacata, a gente não sentia muito os tremores das ruas, o exército perseguindo militantes de esquerda, as notícias (que notícias??) sobre prisões, torturas, sumiços. Lá a gente apenas recebia o leite que o governo mandava pra merenda do recreio (e o macarrão e a charque e o biscoito e o achocolatado), os cadernos com o Hino Nacional na contracapa, que a gente aprendia a cantar, as aulas de Educação Moral e Cívica e as paradas de 7 de setembro. Era tudo o que sabíamos do que acontecia país  afora. Televisão não tinha ainda. E, mesmo que tivesse, era (depois vim a saber) censurada, assim como toda a mídia (a grande mídia).

Também tínhamos uma carteira do INPS e, quando precisávamos, íamos nos consultar com ela e fazer tratamento dentário. Papai tinha um colega no INPS que conseguia as consultas. Não tínhamos casa financiada, a nossa era própria, mas havia o BNH. Tudo parecia funcionar bem, as ruas eram sem asfalto e não tinha muita violência. É o que papai me diz: “Para quem não era metido em política, o governo militar era bom.”

Mas o problema era a política e a falta de democracia. Nos 21 anos do regime dos militares, muitas e muitas pessoas perderam a vida – umas ainda hoje não encontradas, como o célebre desaparecimento do deputado federal Rubens Paiva, de corpo insepulto. E não se podia falar abertamente contra o governo. Se falasse, o pau comia. Se desse bobeira, sumia. Muitos e muitos jovens se jogaram na odisseia de afrontar o governo e por isso pereceram – nos centros urbanos, nas matas do Pará ou na Amazônia. Muitos professores universitários, estudantes  e artistas tiveram que deixar o país, à força e às pressas. Jornalistas não publicavam o que escreviam. A falta da democracia é um sufocamento muito insano para uma sociedade. E, por ela, reagiu-se contra os militares até se conseguir uma distensão, um enfraquecimento gradual e depois uma derrocada do regime.

Hoje percebo que o golpe foi ruim. Na minha época de criança, ele era indiferente, eu só sabia da parte que os livros de História do Brasil e Educação Moral e Cívica traziam. O Brasil cresceu, nessa época? Sim. Mas a um custo democrático muito muito vergonhoso. Hoje não temos mais cenário para outro golpe, apesar de que, vez em quando, se ensaiam recrudescimentos...


Mas até nisso a democracia é boa. Ela permite que saudosistas e atrasistas esbravejem – nas praças, nas ágoras pós-modernas (TV, Rádio, Jornal, Revista, Internet), nas tribunas parlamentares. Falam para ouvidos mocos – ao menos, é o que se espera. 

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