quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Crônica:

DAS LUTAS INDIVIDUAIS

Quando minha mãe morreu, a minha vida mudou – porque minha mãe morreu muito rápida e misteriosamente, de uma doença que não conhecíamos; porque ela era o tipo da “mãe galinha”, que traz todos os filhos embaixo das asas, no maior cuidado; e porque eu perdi meus referenciais, pois ela era o sustentáculo emocional da nossa família. Ela morreu e levou uma boa parte da minha sanidade. Nessa época, eu era membro de uma igreja batista nacional, dessas que creem em milagres, guerras demoníacas e libertações (mas cujo pastor, misteriosamente, não era curado por Deus, pois tinha uma diabetes incurável...). Uma oportunidade, poucos dias depois do enterro, eu estava sentado num banco da igreja, depois do culto, arrasado, lembrando o caos que me abatera e conversando com uma irmã (Hildener, uma colega da Ufma), quando um membro graduado da igreja (acho que se chamava Wilson, um negro de voz aveludada e com pretensões a ter ovelhas, muitas ovelhas...), chegou a mim e, com sua voz aveludada, disse “vão para a escola dominical, vocês estão atrapalhando.” Daquele dia em diante, perdi a fé naquela comunidade – percebi que quem não era sensível aos dramas humanos não podia sê-lo aos conselhos de Deus. O tempo mostrou, depois, que fiz a escolha certa.

Mas o tal Wilson, sem querer, deixou uma ótima lição para minha vida: a de que existem lutas coletivas e lutas individuais. Existem exércitos de muitos homens e mulheres – e existem exércitos de um homem só. Aquela luta era minha, e de ninguém mais. Cada um que chore os seus cadáveres. Hoje eu entendo – e agradeço aquele meu irmão na fé, esperando que Deus tenha ouvido as suas pretensões, e que hoje ele tenha muitas ovelhas, e as ensine por caminhos igualmente tortuosos.

Sim, há lutas individuais. E acho até que elas são as maiores, mais longas e mais sofridas. As lutas coletivas (por reconhecimento de grupo; por identidade social; por melhorias nos transportes coletivos, nas universidades, nas condições do meio ambiente; pela igualdade de sexo, raça, gênero; pela moradia; pela educação, saúde, lazer; pela radicalidade das religiões; pelos deuses de cada um; pela paz ou pela guerra; por qualquer outra causa coletivamente justa) são sempre mais rápidas, mais sonoras, mais calorosas, amorosas e sedutoras. Aqui se segura um cartaz, com a mão na mão de quem se gosta. Ali se joga uma pedra ou um coquetel molotov e depois se põe a foto na internet, pra galera curtir, comentar e compartilhar. Acolá se canta, em uníssono, um hino de vitória ou de esperança, um grito de guerra. Alhures se estampa uma camiseta com frase de protesto. As lutas coletivas são uma delícia.

As lutas individuais não são assim. Há sempre uma dor que ninguém sente, um sentimento que não se expressa, um choro afogado no travesseiro, uma negatividade engolida a fórceps. Há que se ser forte na imagem que se representa socialmente, embora, por dentro, se esteja destroçado. O mundo, absolutamente, não valoriza os perdedores...

Já vivi muitas lutas coletivas, ao longo da minha vida – na faculdade, no trabalho, no sindicado, nos meus engajamentos outros. É sempre bom, sempre gratificante lutar ao lado de quem pensa como você. No fim, se houve vitória, ótimo; mas se não houve, também foi bom, pois fica um aprendizado, uma esperança e os laços comunitários que se formam nesses movimentos. 
Mas hoje vivo uma luta particular. Essa; essa, enfim...

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