quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Crônica:

CIDADES E LIVRARIAS

Quando eu era criança, morava numa cidade pequena que não tinha livrarias. Mas papai, muito cioso da herança que ia deixar aos filhos – ele dizia que a única coisa que podia nos deixar era a educação – sempre comprava livros dos “vendedores de porta em porta”, naquela época muitos e muito respeitados. E minha iniciação no mundo da leitura foi assim. E mais com as revistinhas em quadrinhos e os paradidáticos do Sesi.
Depois mudei de Bacabal para São Luís, seguindo a sina de tantos outros meninos do interior que precisam ir para a capital para não virarem balconistas de loja de tecidos ou de farmácias. Ou donos de mercearia. Ou funcionários de prefeitura. E, lá, pude visitar a primeira livraria da minha vida. Tinha 16 anos quando entrei no sebo Poeme-se, na época um espaço minúsculo na Rua do Sol, onde funcionava a sede do PDT. Poucos livros, um espaço acanhado, mas pra mim já era uma livraria. Comprei um livro de Geografia, usado. E de lá para adiante vieram muitas outras livrarias na minha vida.
Gostava de visitar as livrarias. Gostava de ficar entre as estantes, vendo as novidades, pegando nos livros, folheando, visitando meus autores preferidos. Lembro da livraria Espaço Aberto, do Josias Sobrinho; do Sebo da Moema; da Livraria JC, perto do Teatro Arthur Azevedo; da ABC, perto da Praça Pedro II; do Poeme-se, que depois mudou para um portentoso casarão na Praia Grande; da livraria do Arteiro, a Athenas; da livraria Paulinas, onde de vez em quando eu garimpava um livro de Comunicação ou Jornalismo Popular (foi lá que comprei um “Pedrinho Guareschi” e li com entusiasmo). Visitava também os sebos do ferro de engomar, sempre garimpando, sempre tentando encontrar coisa boa.
Quando fui pro Rio, em 1998, me extasiei. O Rio era, então, o paraíso das livrarias. Havia uma feira de livros usados em frente à Biblioteca Nacional que era um verdadeiro deslumbre. Foi lá que eu comprei, por R$ 50,00, a obra completa de Machado de Assis, em papel bíblia, da prestigiosa Editora Aguilar. Para mim, um troféu. Havia também uma feira de antiguidades no vão da Praça XV, no centro, todo sábado de manhã, para onde eu ia com uma sacolinha, como quem ia à feira. Ia garimpar. E garimpei, entre outras coisas,  dois tesouros: uma edição de Os Sertões, bem antiga, que comprei por R$ 1,00 (isso mesmo, um real) e uma outra edição, também velhinha, de Sagarana, pela metade desse preço... Adorava visitar livrarias no Rio. Às vezes ia para comprar nada, porque o dinheiro era curto. Outras vezes ia atrás de livros para completar a referência da dissertação ou daqueles que a minha esperança me dizia que um dia eu iria usar para preparar aulas. Outras vezes ainda ia só para me alimentar daquele clima delicioso que só as livrarias têm.
Essa crônica começa exatamente aqui, neste último período do parágrafo anterior: “o clima delicioso que só as livrarias têm”. Quem visita livrarias sabe do que eu estou falando, sente o que eu sinto quando vai a uma. Livrarias não são casas comerciais comuns, como farmácias, como açougues, como lojas de variedades ou quinquilharias, como bancas de revistas (para citar algo do seu campo de pertencimento), como quiosques de shoppings. Livrarias têm um clima diferente, uma aura diferente, uma relação diferente que se estabelece entre o visitante, possivelmente comprador de alguma obra, e o conteúdo do qual ela está cheia. Mesmo as de shoppings, que já trazem uma aura mais impessoal, com códigos de barra no lugar dos preços a lápis no canto das páginas iniciais. Ou aquelas megastores, que têm de tudo, até livros.
É uma relação absolutamente sentimental e particular. Quem vai a livrarias vai, em geral, para conhecer autores, para visitar um templo de conhecimento, vai porque gosta de ler e porque adora estar entre os livros. Não falo aqui daquela pessoa que vai a uma livraria comprar um livro didático ou pegar uma encomenda de uma obra para resenhar, não. Essa entra e já olha o relógio ou o celular, preocupada com o tempo que está perdendo na fila do caixa. Falo de quem frequenta livraria porque gosta, profundamente, de ler. E que não se preocupa com o tempo “perdido”, porque é, na verdade, um tempo ganho...
Para essas pessoas, uma cidade sem livrarias – ou com poucas livrarias – é como uma cidade sem parques para os amantes da ecologia. Ou uma cidade sem igrejas para os religiosos. Ou uma cidade sem bares para os beberrões. Ou uma cidade sem vida noturna para os notívagos. Parece que falta algo – e realmente falta.
Aí vai surgir alguém que vai dizer que as livrarias, como o advento dos ebooks, estão superadas. Não estão. Como não estão superados os cinemas. Como não estão superados os parques de diversão. Como não estão superados os parques e jardins. Como não estão superados os contatos físicos. Quem gosta de livrarias vai sempre gostar, porque é uma sensação boa e, repito, absolutamente particularizada.
Elas vão rarear. Vão se transformar. Vão migrar para a tela do computador de maneira híbrida ou una. Mas algumas ainda resistirão.
Fico muito feliz toda vez que vou a uma livraria e vejo um pai ou mãe com um filhote ou filhota do lado, frequentando as estantes. Mesmo sabendo que muitas vezes o guri está mais interessado na seção de informática, quero me iludir que a minha esperança de que ele seja um futuro frequentador de livrarias não é vã.

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