CIDADES E LIVRARIAS
Quando eu era criança, morava numa cidade pequena que não
tinha livrarias. Mas papai, muito cioso da herança que ia deixar aos filhos –
ele dizia que a única coisa que podia nos deixar era a educação – sempre
comprava livros dos “vendedores de porta em porta”, naquela época muitos e
muito respeitados. E minha iniciação no mundo da leitura foi assim. E mais com
as revistinhas em quadrinhos e os paradidáticos do Sesi.
Depois mudei de Bacabal para São Luís, seguindo a sina de
tantos outros meninos do interior que precisam ir para a capital para não
virarem balconistas de loja de tecidos ou de farmácias. Ou donos de mercearia.
Ou funcionários de prefeitura. E, lá, pude visitar a primeira livraria da minha
vida. Tinha 16 anos quando entrei no sebo Poeme-se, na época um espaço
minúsculo na Rua do Sol, onde funcionava a sede do PDT. Poucos livros, um
espaço acanhado, mas pra mim já era uma livraria. Comprei um livro de
Geografia, usado. E de lá para adiante vieram muitas outras livrarias na minha
vida.
Gostava de visitar as livrarias. Gostava de ficar entre
as estantes, vendo as novidades, pegando nos livros, folheando, visitando meus
autores preferidos. Lembro da livraria Espaço Aberto, do Josias Sobrinho; do
Sebo da Moema; da Livraria JC, perto do Teatro Arthur Azevedo; da ABC, perto da
Praça Pedro II; do Poeme-se, que depois mudou para um portentoso casarão na
Praia Grande; da livraria do Arteiro, a Athenas; da livraria Paulinas, onde de
vez em quando eu garimpava um livro de Comunicação ou Jornalismo Popular (foi
lá que comprei um “Pedrinho Guareschi” e li com entusiasmo). Visitava também os
sebos do ferro de engomar, sempre garimpando, sempre tentando encontrar coisa
boa.
Quando fui pro Rio, em 1998, me extasiei. O Rio era,
então, o paraíso das livrarias. Havia uma feira de livros usados em frente à
Biblioteca Nacional que era um verdadeiro deslumbre. Foi lá que eu comprei, por
R$ 50,00, a obra completa de Machado de Assis, em papel bíblia, da prestigiosa
Editora Aguilar. Para mim, um troféu. Havia também uma feira de antiguidades no
vão da Praça XV, no centro, todo sábado de manhã, para onde eu ia com uma
sacolinha, como quem ia à feira. Ia garimpar. E garimpei, entre outras coisas, dois tesouros: uma edição de Os Sertões, bem
antiga, que comprei por R$ 1,00 (isso mesmo, um real) e uma outra edição,
também velhinha, de Sagarana, pela metade desse preço... Adorava visitar
livrarias no Rio. Às vezes ia para comprar nada, porque o dinheiro era curto.
Outras vezes ia atrás de livros para completar a referência da dissertação ou
daqueles que a minha esperança me dizia que um dia eu iria usar para preparar
aulas. Outras vezes ainda ia só para me alimentar daquele clima delicioso que
só as livrarias têm.
Essa crônica começa exatamente aqui, neste último período
do parágrafo anterior: “o clima delicioso que só as livrarias têm”. Quem visita
livrarias sabe do que eu estou falando, sente o que eu sinto quando vai a uma.
Livrarias não são casas comerciais comuns, como farmácias, como açougues, como
lojas de variedades ou quinquilharias, como bancas de revistas (para citar algo
do seu campo de pertencimento), como quiosques de shoppings. Livrarias têm um
clima diferente, uma aura diferente, uma relação diferente que se estabelece
entre o visitante, possivelmente comprador de alguma obra, e o conteúdo do qual
ela está cheia. Mesmo as de shoppings, que já trazem uma aura mais impessoal,
com códigos de barra no lugar dos preços a lápis no canto das páginas iniciais.
Ou aquelas megastores, que têm de tudo, até livros.
É uma relação absolutamente sentimental e particular. Quem
vai a livrarias vai, em geral, para conhecer autores, para visitar um templo de
conhecimento, vai porque gosta de ler e porque adora estar entre os livros. Não
falo aqui daquela pessoa que vai a uma livraria comprar um livro didático ou
pegar uma encomenda de uma obra para resenhar, não. Essa entra e já olha o
relógio ou o celular, preocupada com o tempo que está perdendo na fila do
caixa. Falo de quem frequenta livraria porque gosta, profundamente, de ler. E
que não se preocupa com o tempo “perdido”, porque é, na verdade, um tempo
ganho...
Para essas pessoas, uma cidade sem livrarias – ou com
poucas livrarias – é como uma cidade sem parques para os amantes da ecologia.
Ou uma cidade sem igrejas para os religiosos. Ou uma cidade sem bares para os
beberrões. Ou uma cidade sem vida noturna para os notívagos. Parece que falta
algo – e realmente falta.
Aí vai surgir alguém que vai dizer que as livrarias, como
o advento dos ebooks, estão superadas. Não estão. Como não estão superados os cinemas.
Como não estão superados os parques de diversão. Como não estão superados os
parques e jardins. Como não estão superados os contatos físicos. Quem gosta de
livrarias vai sempre gostar, porque é uma sensação boa e, repito, absolutamente
particularizada.
Elas vão rarear. Vão se transformar. Vão migrar para a
tela do computador de maneira híbrida ou una. Mas algumas ainda resistirão.
Fico muito feliz toda vez que vou a uma livraria e vejo
um pai ou mãe com um filhote ou filhota do lado, frequentando as estantes. Mesmo
sabendo que muitas vezes o guri está mais interessado na seção de informática,
quero me iludir que a minha esperança de que ele seja um futuro frequentador de
livrarias não é vã.

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