BIA
Há uma parte de mim que não está em mim
Que pulsa fora de mim,
Que está onde não estou e vai aonde não vou,
Que sente o que não sinto,
Que vive os perigos da vida que eu não tenho,
Que sente todos os desejos que eu não consigo sentir porque
tenho um corpo, uma alma, um espírito, um aparelho sensitivo e uma caixa de
emoções totalmente outro.
Há uma parte de mim que atende por outro nome que não o meu,
Um nome que eu, no entanto, ajudei a pôr,
Com essa parte ainda muito mole e frágil e indefesa e quase
indefinida pelas circunstâncias do ambiente recém-pós-uterino.
Mas a essa parte estou ligado por laços que estão para além dos
sanguíneos,
Para além de papéis socioculturais.
São laços abissais e afetivos, familiares porque primevos,
Laços ontológicos que ligam todas as criaturas – racionais ou
não.
Há uma parte de mim que vai fazendo seu percurso vital em
estradas que eu só avisto de longe,
Longe-perto-longe-perto-longe-longe-perto-perto-longepertolonge.
Há uma parte de mim com um destino aberto,
Enquanto o meu vai se estabilizando e fechando em definições
diárias.
Há uma parte de mim que atende quando a chamo,
Porque ouve a voz do meu amor.
(São Paulo, manhã de sábado, cozinha do Soul Hostel, 18 de
fevereiro de 2017)
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