O prédio era alto, Luísa morava no quinto andar. Ela tinha
ouvido uma vez, na TV, que cada andar equivalia a três metros. Então, estava a
quinze metros do chão.
Lá de cima, ela conseguia ver o carro do seu pai estacionado
perto do meio-fio. O vermelho no teto reluzia àquela hora da tarde, duas e
meia. Luísa já deveria estar na escola desde à uma e meia. Hoje seria dia de
prova. Matemática. Mas ela não foi nem mandou qualquer justificativa. Não
precisaria.
Luísa não tinha medo de estar ali. Já tinha feito isso muitas
vezes, quando a mãe não estava em casa. Mas sempre voltava. Por brincadeira,
só.
De sério, só aquela vez. A última.
Ninguém podia saber como Luísa estava se sentindo. Nem ela
sabia. Apenas, de uns tempos para cá, foi sentindo umas tristezas, foi perdendo
a vontade de sair, de ver coisas na internet, de ouvir música alto, de estar
com as amigas. Ficava enfurnada no quarto grande parte do tempo. Para a mãe,
dizia que estava estudando para uma prova. Qualquer prova. Ela tinha muitas e a
mãe trabalhava o dia todo e chegava em casa acabada, não dava para ficar
vigiando seus estranhamentos. O pai viajava demais, representantes comercial.
Também Jorge não entendeu quando ela, sem nenhuma outra
razão, terminou o namoro de três meses. Queria um tempo. Estava sufocada. Ele
ainda mandou umas três ou quatro mensagens, no Whatsapp, depois desistiu. “A
vida é pra frente”, postou no Facebook. Que ela não viu.
Ao lado do carro do pai, lá embaixo, ficava a barraca de
churros do seu Francisco. Lá, muitas vezes, ela comprava pra “pagar depois”. “Seu
Chico” confiava, era uma menina de boa família. Mas hoje estava tudo quitado.
Na cama, aberto o livro de Matemática, com a lição pela
metade. Eram os exercícios de revisão da prova que ela nunca faria. O notebook
ficou desligado desde o dia anterior. O uniforme não saiu do cabide. Nenhuma
bagunça no quarto, nenhum recado para ninguém.
Luísa deu um passo à frente. E abraçou o vazio.
(Porto Alegre, 14 de março de 2016)

Nenhum comentário:
Postar um comentário