Se você me deixar, saiba que eu
não vou dar um tiro na cabeça, nem cortar os pulsos, nem pular da ponte. Nada
disso. Nenhuma afetação para punir você, publicamente (sim, porque sempre essas
afetações têm o explícito objetivo de punir @ outr@, dizendo a todos “olha como
ele ou ela me deixou... crápula, crápula!!...). Não. Não farei nada disso. Vou
chorar baixinho, ouvindo aquelas canções que lembram de nós dois, vendo todas
as nossas fotos nas redes sociais (até ter coragem de apagá-las), lendo tudo o
que você falou de mim nas nossas páginas de relacionamento e me perguntando:
“Meu Deus, por quê?”.
Se você me deixar, você
simplesmente vai virar uma criatura divinal. Porque vai adquirir o estatuto da
onipresença – aquela que eu aprendi no catecismo que só Deus tinha. Porque você
será vista em todos os lugares, sua voz será ouvida todo o tempo, seu cheiro
vai impregnar todos os ambientes, tudo o que lembra você vai estar espalhado,
viralizado. E você passará a me perseguir pela eternidade.
Se você me deixar, eu sofrerei
dia e noite, não na mesma intensidade. Não chegarei a perder o emprego, mas é
capaz de não dar as caras por lá uma ou duas semanas. Depois eu vou na UPA e
pego um atestado para não perder essa grana – que, afinal, me fará falta para
te comprar um buquê e uma caixa de bombons da Cacau Show e mandar um mototáxi
entregar no teu serviço, com um cartão cheio de clichês e palavras açucaradas.
Se você me deixar, passarei a ir,
sorrateiro, a todos os lugares que eu sei que você estará, com os seus amigos,
aquelas suas amigas que te envenenaram contra mim, aquele
teu-colega-que-de-colega-não-tem-nada ou mesmo com um novo namorado. Irei
sozinho, pra ninguém que nos conhece achar que eu “já tou em outra” e isso me
afastar ainda mais de você. Vou na esperança de te ver, sem coragem, claro, pra
me aproximar nem dizer nada. Eu, afinal, sou assim mesmo...
Se você decidir realmente me
deixar, antes leia um poema lindo do Quintana, que diz assim: “Se tiveres de me
esquecer/me esqueça bem devagarinho...”. É algo assim, eu acho. Mas o sentido é
este mesmo: não me deixa do dia pra noite, deixa eu ir me acostumando com a tua
ausência. Meu coração é frágil, e eu mais frágil ainda. Me deixa sem arroubos,
sem surpresas. Se bem que, do tanto que te amo, “sem surpresas” é uma coisa que
levará, pelo menos, uns cinquenta anos pra acontecer...
Se você me deixar, meu amor,
deixa primeiro eu terminar aquela terapia. Ainda estou na fase dos problemas da
infância. Espera, ao menos, eu chegar na puberdade...
Se você me deixar, mudo de
cidade. Vou morar em Xapuri. Ou em qualquer cidade perdida no Amazonas. Ou na
Guiana Francesa. Um lugar cuja passagem seja bastante proibitiva, para não
correr o risco de cruzar contigo. E vou voltar pro orkuti, nova versão, pra não
saber de você. Nunca mais.
Se você me deixar, é claro, a
vida vai continuar. Mas eu, euzinho aqui, não serei o mesmo. Nunca mais.
(Porto Alegre, 09.04.2016 – um
dia com cara de chuva)

Lindo demais!
ResponderExcluirLindo demais!
ResponderExcluirAmei! 😊
ResponderExcluirEssa chantagem tem grande chance de colar. Depois que elea ler vai ter peso na consciência e não vai te deixar nunca mais..
ResponderExcluirrs. lindo o texto!
Perfeito! E quando finalmente você me deixar, ainda verei um texto desses na internet pra lembrar de tudo o que foi vivido. Eita, Marcos Fábio, arrasou!
ResponderExcluirIncrível! Você escreve muitíssimo bem. Estou 'viajando' aqui nos seus textos. Forte abraço.
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