A VIDA É DOCE
- Eu sou apenas uma mulher
prática. A última frase foi dita já com
as malas dele saindo pela porta e ela mandando o taxista subir para pegá-lo.
Anita nasceu prática. Poucos
brinquedos na infância, poucos namorados no colégio para não distrair os
estudos, uma faculdade feita trabalhando e paga com enormes dificuldades, mas
sempre em dia, um diploma de advogada que lhe daria (pensava então) um sossego
na vida adulta. Deixou os beijos, os abraços, as saídas com a turma e o sexo
para depois dos vinte e cinco, do escritório montado e do carro na garagem.
Agora, com trinta anos, percebeu
que poderia ter sido mais emotiva, se deixado levar por pequenas loucuras de adolescência e de universitária que, enfim,
não seriam a pior coisa do mundo – como quando daquela vez que podia, por
exemplo, ter experimentado maconha na calourada e não quis por medo de se
viciar. Aquele porra louca do Tarciso experimentou, chapou a faculdade inteira
e hoje é procurador do trabalho.
Os namorados também podiam ter
frequentado mais as letras do alfabeto. Que ela lembre, só dois antes desse
desastre que foi o Ciro. Perdeu a virgindade com o Ciro porque achava que ele
seria o cara que iria tirá-la de uma vida de dificuldades. Afinal, ele era professor universitário, consultor de
uma grande empresa de remédios e outras cositas
mas. Depois que deu pra ele e foi ficando pelo apartamento que ele alugou
para impressioná-la, percebeu a furada: o cara era um fodido, um desorganizado
com as finanças, devia todo mundo e tinha os bens vinculados a uma ex-mulher
que ela só descobriu fuçando as coisas dele, quando já não dava mais para
recuar... Uma vida de aparências, a do Ciro, na qual ela estava
irremediavelmente metida até o pescoço.
Decidiu não ter filhos. As duas
vezes que engravidou, botou pra fora, uma inclusive na mesa de cirurgia de uma
clínica clandestina. Melhor correr o risco de se estrepar do que levar pela
vida toda um pedaço daquele doido lascado, ela disse numa mesa de bar a uma
amiga, que se escandalizou, mas compreendeu e prometeu guardar segredo. Não
guardou e agora ela tinha que dar explicações sobre isso ao Ciro, numa briga em
que ele lhe deu um tapa no rosto. Foi aí que ela decidiu botá-lo pra fora de
casa, pois podia ter sido tola, mas ainda era uma mulher prática.
- Foda-se a sua praticidade. Você
vai acabar seus dias velha, feia, sozinha e toda fodida, porque ninguém vai
querer ficar ao seu lado, sua cadela escrota. Ciro gritava do táxi, empurrando
as malas pra dentro e contando os abortos para quem quisesse ouvir. Anita
estava sentada no piso, embaixo da janela, com as mãos nos ouvidos e os olhos
fechados. Quando tudo se acalmou, levantou-se, enxugou uma lágrima que ia
caindo – uma só! -, desceu e foi mandar lavar o carro.
No fim daquela semana, ela já
estava com as senhas trocadas, um outro netbook, o cabelo pintado de loiro e num
apartamento novo, alugado mobiliado de uma amiga que estava indo para um
estágio no exterior. Um apartamento num condomínio com porteiro, para não
correr o risco de o maluco do Ciro querer invadir.

Nossa, q loucura de história , ela queria uma vida prática, mas se estribou no seu próprio entendimento, fez algumas besteiras, depois tentou mudar.
ResponderExcluir