AMIGOS PARA CHORAR
Sempre gostei de escolas. Lembro
de, muito pequeno ainda, montar um “coleginho” na garagem lá de casa, para
ensinar os colegas que ficaram de recuperação e ainda levantar uma graninha para
comprar besteiras de criança. O ambiente da escola, com tudo o que ele
representa, foi, em todas as etapas da minha formação, uma coisa positiva.
Tanto que, depois que acabei o doutorado, fiz uma tentativa de voltar aos
bancos do ensino superior, numa nova graduação. Mas aí, os compromissos, a
correria e outras coisas pessoais não me deixaram completar a etapa. Fiquei
apenas na escola da vida, essa que nos ensina todo santo dia uma nova lição.
Como a que aprendi ontem. Aprendi
que existem várias categorias de amigos. Amigos não são todos iguais. Nem
existe aquela história de que “um amigo sincero se reconhece nas horas de
dificuldade”, como diz um ditado popular. Nada disso. Existem amigos, de distintas
qualidades e para distintas finalidades.
Existem aqueles amigos para curtir
a vida, para sair, para badalar. Existem aqueles para nos colocar no eixo, nos
chamar à razão, como o grilo falante, uma espécie de “voz da consciência”.
Existem aqueles pra nos tirar das dificuldades – esses, em geral, são muito
práticos: conseguem dinheiro, sabem como desenrolar uma burocracia, como
desfazer um mal-entendido com alguém, conhecem até uma fórmula para reatar com
a pessoa amada. Existem amigos para tirar boas fotos, estando nelas ou não.
Existem até os amigos de cama – aqueles que nos amam como se nos amassem, mas
que apenas curtem os nossos instintos, e nós os deles. E existem os amigos para
chorar.
Esses são os mais íntimos. São
aqueles que conhecem as nossas fraquezas; aquelas que nós escondemos, por medo,
por impossibilidade de manchar nossa imagem pública, de borrar a maquiagem ou
de parecer fraco diante de quem não queremos. Aqueles que estão prontos a nos
ouvir dizer coisas que os demais amigos não precisam saber; mais: nem sonham em
saber... Aqueles que nos dão bem mais que o ombro, nos dão os braços para nos
envolver, a cama para deitar e molhar, o quarto para que as paredes recebam o
reverbero dos nossos gritos de dor e desesperança. Aqueles que, enfim, guardam
nossos maiores segredos e ajudam a secar as nossas lágrimas...
Nem todos podem ser amigos para
chorar. Muitas vezes, não é por falta de vontade, mas de qualidade. Muitos não
têm experiência para assumir a tarefa – que não é fácil nem romântica; é, ao
contrário, árdua e opressora, porque quem ouve chorar também chora, muitas
vezes por dentro, que é o choro pior, porque não escorre... Muitos têm uma vida
tão agitada que não conseguem parar para nos ouvir chorar – sim, porque, apesar
de vivermos em alta velocidade, o choro precisa de tempo, de silêncio e de
inércia; o mundo de quem chora e de quem ouve chorar precisa parar; não dá para
ser “amigo para chorar” com o Whatsapp ligado enquanto você se esvai... E,
muitos, enfim, não têm interesse em saber dos seus problemas, porque, para
eles, você é uma fortaleza e não pode passar uma outra imagem; você é a
referência de positividade, e não queira mudar isso. Mudar isso seria destruir
mitos – e o ser humano precisa de mitos para referenciar sua vida. Não queira
mudar isso; é a sua utilidade na vida deles.
Na Bíblia, se você buscar, vai ver
que, em João 13:23, há uma referência a “o discípulo que Jesus amava”. Então,
Jesus não amava a todos os outros? Sim, claro. Mas tinha um que ele amava mais
que os outros. Será que não seria esse o “amigo para chorar” de Jesus? É apenas
uma hipótese. Não é à toa que, para esse discípulo, Jesus entregou, na agonia
da crucificação, a própria mãe. Em João 19:26, Ele diz: “mãe, eis aí o teu
filho” e “filho, eis aí a tua mãe”. Não há presente maior, não que eu conheça.
Os “amigos para chorar” também não
somos nós que escolhemos. É a vida que nos mostra. E não serão muitos, ao longo
da sua vida. Às vezes, uma meia dúzia, que nos acompanharão em várias etapas da
nossa vida, porque o tempo tratará de espalhá-los pelo mundo. Outras vezes,
apenas dois ou um, que estarão ao nosso lado pela vida toda.
E como cultivar esses amigos? Não
precisa fazer nada. Eles são como cactos. Não precisam de cuidados especiais.
Só precisam que o amor que os une vá sendo depositado, na frequência que a vida
impuser. Devem ser apenas guardados. E bem guardados. Talvez “no lado esquerdo
do peito”, como ensinou Milton Nascimento, na sua belíssima “Canção da América”.
Talvez num porta-retratos, ao lado da nossa cama. Talvez num álbum secreto,
numa dessas redes sociais que existem por aí – e que ainda existirão. Ou talvez
ainda numa caixinha de música, ocupando o lugar da bailarina.
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